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Olá Grutas de Khodzué Cheringoma! (parte II)

DJMuala(continuação)

De Domingos Muala

Domingo: 23 de Março de 2008

Já viu umas minas de exploração?
As Grutas como tal carecem de um perito em descrição para impecavelmente poder trazer aquele misterioso acontecimento da natureza para imaginação dos que teimam em manter o hábito de ler neste século viciado. Autênticas minas (minha imaginação porque nunca vi uma mina de exploração) ora abertas por aqui, ora fechadas por ali.


Paraíso arrepiante de morcegos cujas variedades pedem um esclarecimento de cientistas na matéria.  


Bats_resized


Ar está eternamente climatizado. Os aparelhos de ar condicionado aí montados são automáticos e super resistentes. Claramente prometem estragar-se pouco a pouco quando as rochas também pouco a pouco forem cedendo a violência das forças naturais.


Água, esta é apropriada para um mergulho só num calor de verão mais velho. Ken e seu sobrinho, já num verão debilitado de 23 de Março de 2008, não resistiram a tentação de mergulhar um pouco naquelas águas. Estranho! Os dois mergulharam com suas roupas e sapatos. Assim como passaram a prova do caminho tenebroso, assim introduziram-se naquelas águas santas! Quem nunca sentiu atracção pelo exótico? Pelo particular? Pela diferença?


Lembre-se que Ken é bastante maduro. Entretanto seu sobrinho é reservado. Ken conversou e aguentou com a onda jovem mergulhando, subindo e descendo as rochas. Saltou onde pôde, sentou quando estoirado. Só reprovou num truque: tratava-se da última prova da juventude. Subir numa das fissuras mais abruptas entre as paredes das rochas. Aí Ken aceitou que a idade não lhe poupa. Aceitou também que tudo tem o seu tempo e que vale apenas respeitar esta lei natural.


Gorge_resized


Seu sobrinho (perdoem-me não cheguei a fixar o nome do rapaz sobrinho de Greg), este sim. Está na melhor forma física que Ken. Talvez ainda que Greg. Passou a prova máxima. Subiu onde seu tio Ken foi avisado pelos instintos a evitar o atrevimento e conformar-se com a realidade. Subiu e desceu protegido de seus anjo de guarda. Enquanto isso, Ken tornou-se num professor e ia ensinando as crianças, que brincavam com um morcego vivo numa das ‘cadeiras’, que alguns morcegos são venenosos e suas mordeduras surtem numa doença mais forte que a famosa malária.


Tive que interromper minha entrevista com o camarada secretário do bairro para uma vez usurpado a profissão de professor por Ken, pelo menos ganhar a de intérprete da aula.


Lanterna é recomendada em algumas das auto-estradas internas que levam de uma gruta para a outra, excepto em sítios onde tem abertura natural de comunicação directa com a luz do sol. Também a coragem não escapa a recomendação. Sobretudo nas passagens sombrias com milhares de morcegos em festa no tecto das avenidas adentro. Uma imaginação fantoche não deixa de visitar a alma quando se repara, sobretudo para o teto natural, mais do que para os muros de vedação das auto-estradas internas das Grutas de Khodzué. Uma sensação de uma parte do tecto a cair por cima de uma coitada alma atrevida ou mesmo de muitas almas, já que anda-se sempre em grupo ali dentro.


Uma verdade incontestável é
Entrar nestas Grutas é aceitar a hipótese de morrer. É crer que a qualquer momento tudo pode acontecer. Se até a pobre imagem natural em rocha de um elefante, lá dentro das Grutas, foi forçada a aceitar a sepultura por um maciço imperativo do peso de rochas que se desintegraram do tecto e dos lados, o que descartaria a possibilidade de uma rocha surpreender a cabeça de um curioso? Não disse que isso aconteceu! São fantasmas que assaltaram a minha imaginação na altura real.


Disse sim que entrar nas Grutas é provar a tese segundo a qual a terra é feita de camadas: manto, crusta, núcleo.
Embora não visse núcleo nenhum nas grutas. Manto, sim essa camada eu testemunhei. Passei por ela para depois experimentar a crusta. Esses são conceitos que meus professores ensinaram-me na escola. Não condenem aos meus professores. Se estão trocados é minha falta de assimilação da matéria. Então os endireitem, por favor se for o caso. Não é assim o saber? Tão vulnerável que ninguém se deve pretender dono individual. Só a comunidade no seu todo reclama a propriedade do saber e não eu filho inútil dela.


Ummmmm as Grutas de Khodzué! Quem as mostrou a Vasco Galante?
Quer provar? Não hesite em visitar as Grutas de Khodzué! Para experimentar. Disse que faltam-me dons de descrição. Só consegui dizer que enquanto se estiver dentro das Grutas, até pode-se crer que fora não existe vida; árvores, arbustos, capim, animais, pessoas. É uma das possibilidades de estar vivo dentro e debaixo das rochas. É aceitar uma sepultura e comprometer-se a ressuscitar só depois de algumas horas. É aceitar visitar enquanto vivo o lugar dos mortos sem ficar por lá para sempre. Talvez quando caçado por uma rocha de maior peso. Aí sim terá ido para as Grutas buscar a diminuição da distância entre nós e aqueles pelos quais precisámos de sempre oferecer o conjunto de comida e bebida acima, para bênção, sucessos, boa companhia, paz para visitar as Grutas…


A incessante vaidade humana; de escrever nas paredes?
Também pode-se praticar a arte de rabiscar dentro dessas Grutas.


Atenção: só os altos dignitários é que estão felizmente credenciados a riscar seus nomes nas rochas naturais. Ken e eu sugerimos a compra de um livro e umas canetas para os que devem assinar sua presença atrevida nas Grutas o fazerem livremente num papel. Os dois acreditamos que assim a beleza natural das rochas dentro das Grutas ficaram como a Natureza as quis. Pelo menos seria o único lugar onde a força destruidora do famoso racional (Homem) deveria ter piedade e prudência. E isso não reduz a fama do Homem, pelo contrário.


Há sempre razão para o Homem estragar a natureza. Há sempre justificativos fortes para corromper o natural! A criatividade sempre anda a deriva quando a vontade é ávida. E o bicho da comunicação tem aí a sua disfarçada culpa. Todos querem comunicar. Mesmo quando a sua comunicação não tem mensagem, aliás tem conteúdo desorientador e improdutivo. Desculpe exagerar. Pelo menos eu tenho o hábito mau de às vezes ficar emocionado e perder um pouco de cabeça. Sobretudo quando a gente racional mostra-se instável e louva a loucura.


Então é ideal pensar-se num livro para aquele lugar onde os importantes sentem o orgulho de deixar seus nomes timbrados?


Última parte da viagem às Grutas
Saídos das Grutas tivemos que esperar. Quase um hora e meia pela chegada do helicóptero para devolver-nos ao famoso Chitengo. Estávamos com fome e cansados. Todo nosso lanche tinha sido sacrificado aos espíritos dos antepassados. Aos meus avós. Reparei no sobrinho de Greg. Muito faminto. Não escondeu a derrota dele diante da fome. Diante da necessidade inadiável como diz o Sigmund Freud. Mas Ken já não. Parecia mais resistente à fome. Talvez porque era o mais velho do grupo. E sentia a obrigação moral de convencer-nos que já provou um pouco a dureza da impiedosa vida. Indiferente, foi entretendo seu sobrinho com conversas. Então aproveitei conhecer um pouco mais a família tradicionalmente responsável pelas cerimónias nas Grutas. Eu em parte não poderia ter razão se me mostrasse mais faminto que aqueles bons americanos. Porque afinal o farnel foi oferecido aos nossos antepassados em troca da boa companhia nas Grutas. Ganhei o tempo a inquirir a nossa companhia local que a seguir passo a retratar.


Francisco Soares Chimbatata é o falecido pai dos três irmãos que depois de saborearem o helicóptero ficaram connosco lado à lado nas Grutas. Saídos das Grutas com o nosso farnel sacrificado no ‘Nsembe’ (10 pães e mais de 10 refrescos), ganhei o tempo para saber que:


A família de 31 pessoas


Francisco Soares Chimbatata que em vida acumulava funções de mestre de cerimónias nas Grutas e secretário do Bairro Khodzué apercebendo-se da vizinhança da sua morte distribuiu os seus poderes pelos filhos.
Francisco teve duas esposas, que eram duas irmãs filhas do mesmo pai e da mesma mãe. Algo um pouco estranho, não é?


Ladies_kids


O Francisco começou por ter a mãe da tripla, Luís, Jeremias e Baptista, por esposa. Esta primeira esposa é que convida a sua irmã mais velha e viúva para ser a segunda mulher do seu esposo. Isso não é incesto é simplesmente uma poliginia sororal o contrário da poliandria fraternal ou adélfica praticada em Gorongosa. Com duas esposas Francisco fez 12 filhos. 8 da primeira esposa e 4 da segunda. Mais tarde Deus pediu a Francisco devolver 4 crianças restando-o com 8 que agora rezam pelo seu pai.


O mestre de cerimónias nas Grutas de Khodzué
Luís Francisco Soares Chimbatata, filho mais velho dos vivos, coube-lhe a responsabilidade de ministrar as cerimónias nas Grutas tarefa que faz com muito gosto. Luís tem com mais 36 anos, duas esposas, 13 filhos dos quais 7 rapazes e 6 raparigas, superando assim o número de filhos de seu pai.


Para responder às necessidades básicas de pai, Luís pratica agricultura, apicultura há de mais de 21 anos e tem 150 colmeias para além de trabalhar na CMM (Cerração Madeireira de Moçambique) desde o ano de 2000.


A CMM rende-lhe actualmente 1.800 Mt mensais.
Luís é o único sortudo daquela casa. Talvez por ser o mais velho. Foi abençoado! Luís às vezes orienta seus irmãos para recolherem o mel e vender para fazer face às vicissitudes da vida quotidiana enquanto ele atura a CMM como pisteiro/sinaleiro. É uma daquelas actividades que se as árvores reagissem não tardariam a mostrar a sua indignação contra ele.


O secretário do Bairro Khodzué
Jeremias Francisco Soares Chimbatata é o olho do governo no bairro Khodzué, cargo exercido em sucessão de seu falecido pai. Foi assim que Francisco o quis antes de deixar a terra para os ceus junto de Deus.


O jovem secretário disse que seu bairro tem uma capacidade para 450 casas. Actualmente tem quase 290. Muitas pessoas preferem ir viver perto da vila sede de Cheringoma.
Jeremias exerce o seu poder sobre 210 homens e quase 230 mulheres de acordo com um censo mais recente que fez no seu bairro.


Jeremias tem 34 anos de idade, polígamo. A primeira com 5 cinco crianças das quais 4 rapazes e 1 rapariga. A segunda esposa já deu ao grande chefe uma menina, elevando o número de filhos deste senhor para 6.
Para além das suas responsabilidades comunitárias, Jeremias dedica-se a actividades agrícolas e à criação de galinhas. Sonha um dia poder comprar uma moageira de pelo menos três cilindros. Quer fazer negócios. Seu bairro só tem uma moageira que nem se quer ainda começou a moer.


Sobre a população jovem aquele dirigente revelou que o seu bairro tem mais de 500 que vão de 0-18 anos, sendo 307 meninas e os restantes do sexo oposto. Casamentos prematuros são a grande realidade comum em Khodzué.


Da resolução dos problemas do bairro recebe 65 Mt de cada caso. Depois de acumular por algum tempo ele manda o montante para a sede da localidade. De lá o dinheiro depois será processado em salários para os seus três juízes tradicionais locais.
Desde 2005 que Jeremias começou a exercer as actividades de secretário de bairro só espera em 2009 para começar a ganhar salário pelo seu trabalho de secretário de bairro Khodzué.


Baptista é um aventureiro
É preciso perceber que há várias formas de receber poderes, directa ou indirectamente. Baptista Francisco Soares Chimbatata recebeu indirectamente várias funções por influência de seu pai: chefe do policiamento comunitário e membro do Comité de Gestão dos Recursos Naturais de Khodzué.


Baptista


Com os seus 29, ele é dono de duas esposas. Já deve ter notado que os 3 irmãos tem 6 esposas. São todos polígamos. Dizia que Baptista é pai de 2 crianças. Sendo a segunda esposa prematura e ainda sem filhos.
Deve obviamente ter somado já 30 membros resultantes da trípla. Adicione a esta soma a mãe deles que vive e compartilha o mesmo quintal com os filhos. Ela é a macaiaia da família! Com a mãe a soma sobe para 31 membros da família.


A alimentação dos 31 membros
Interessou-me ainda perceber que a família tem 31 membros no mesmo quintal grande. Um quintal cheio de casas, de fruteiras como massaniqueira, papaeiras, etc. Apesar de serem 31, toda esta família está tão organizada que as suas 6 esposas têm rotineiramente que preparar refeições para todos. Cada senhora conhece perfeitamente a sua vez e só confecciona uma refeição porque a refeição seguinte será uma outra senhora. Os esposos providenciam sempre caril . Deste modo, eles fazem a coesão da família.


Baptista Jeremias_resized


O bairro de Kodzué
Com um universo de quase 290 casas, Khodzué não foi esquecido pelo governo distrital. Desde 2006 tem já duas Associações uma neste bairro e a outra em Nhamatope surgidas no âmbito da promoção de iniciativas locais pelos governos distritais através do fundo de investimento a iniciativas locais. A Associação de Khodzué está virada para a produção de hortícolas e de fruteiras tais como cajueiros, laranjeiras, coração de boi.
A outra de Nhamatope dedica-se unicamente a hortícolas. Pelo menos foi assim que o secretário do Khodzué adiantou em resposta ao meu questionário sobre as actividades económicas da sua população.


As habitações em Khodzué são feitas com base em bambus, matope/lama e cobertas de capim. Muitos pensam em cobrir suas casas com chapas para evitar queimar no tempo dos fogos.


Segundo a mesma fonte, os solos são muito férteis e produzem entre outras culturas o gergelim em grande quantidade. Gergelim é tido como uma cultura puramente comercial.


 

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