« Olá Grutas de Khodzué Cheringoma! (parte II) | Main

Olá Grutas de Khodzué Cheringoma! (parte I)

DJMuala

De Domingos Muala

Domingo: 23 de Março de 2008

Um Passeio até às Grutas de Khodzué!

São dez horas e alguma coisa. Vasco Galante, todo preocupado pelo paradeiro de cada tripulante, intensifica as comunicações. Quer saber onde todos os que vão viajar estão. Também fiz parte do grupo das pessoas por Vasco convidadas para desfrutar das magnânimas belezas do Parque Nacional da Gorongosa, não fui excepção à preocupação dele. E porque tudo aqui no Parque da Gorongosa anda coordenado com todos os seus intervenientes, então agradecemos a todos que tornaram possível esta viagem às grutas de Khodzué (“Codzo Caves” no mapa mais abaixo).

GORONGOSA_LGportOPT70_resized 

Para as Grutas?
Partimos para lá cinco passageiros: Greg Carr, seu irmão Ken e seu sobrinho, a senhora Peggy Rockefeller, Tato Alexandre e eu e o nosso ilustre e habitual piloto.

Ao descolar, Greg Carr pediu que o piloto tomasse a direcção norte para facilitar-nos ver alguns elefantes. Os ânimos eram enormes, sobretudo no colega Tato. Tudo justificável. Porquê tanta emoção?

Primeira vez a sentar com patrão lado a lado e conversar naturalmente?

Primeira vez a viajar no espaço aéreo?

Primeira vez a aterrar de helicóptero em terra natal e num ambiente familiar em plena Páscoa?

Primeira vez num voo que se podia considerar bastante especial a contar com a importância social da maior parte dos tripulantes?

Quem nunca emocionado nessas circunstâncias?

E eu não fui excepção. Nem todas emoções de Tato foram as que eu senti. Talvez em cinquenta por cento. E as razões são por demais simples.
Tato ía para seu ambiente familiar, que até já conhecia. Embora tivesse passado muito tempo fora dele. Vou ser mais simplista e dizer que o ambiente de Khodzué já era familiar ao Tato.

Então, não tive emoções? Foi tudo normal para mim? Não. Tudo deve ter sido normal, naquela circunstância, só para o nosso engenho, o helicóptero.
A sinceridade e simplicidade é importante não é?


Então quais foram as minhas grandes na viagem às Grutas?
Primeira vez no helicóptero ‘do Parque’ e com patrão e aquelas pessoas tão importantes.

Primeira a perceber quanto pude ver: a grandeza, a verdura, a textura florestal, a necessidade de mais animais multiplicarem-se e popularem densamente os espaços ainda vazios.

Primeira vez a visualizar a grandeza do lago Urema e as partes que os seus efeitos se fazem sentir na vegetação, a perceber que o Parque não é só plano. Zonas altas e bastante rochosas com paisagens fanerozóicas imponentes aumentam a beleza deste vasto Parque. E as zonas altas com os seus acidentes rochosos, suas grutas, seus cursos de água, sua vegetação específica, seus pássaros, quebram a rotina do safaris de animais e abrem um brecha de igual emoção no espírito humano. Cortes rochosos que com o sol a incidir neles trazem à mente, antes das Grutas, uma outra beleza diferente de animais, plantas, pássaros e conduz sabiamente as suas correntes de água (as cascatas).

Toda a viagem foi repleta de primeira vez: a ver habitações dentro de Parque e em condições bastante vulneráveis a ataques selvagens. O que confirmou-me a outra face do Homem. A sua exclusividade de poder aprender tudo. Habitar em ambientes bastante perigosos como no meio de um Parque de animais selvagens. Habitar no coração de grandes cidades como Joanesburgo com altos índices de criminalidade.

Viver no Vaticano com alto nível de santidade?

O Homem é mesmo grande! E é grande a sua coragem e determinação! E o homem só fracassa quando admitir pensamentos contrários aos que teve ao decidir sobre algo. E qual seria a razão de toda coragem de continuar a residir no meio da selva, de animais, em pleno coração do Parque? A força de hábito? De tradição? De cultura? De guardar os animais e velar por eles? De poder desfrutar da abundância de carne?

Então qual das seguinte hipóteses é passível:

a) ‘Aquelas comunidades de homens vivem aí no coração do Parque Nacional da Gorongosa para guardar e nunca matar nenhum animal ilegalmente’.

b) ‘Vivem aí porque não têm onde passar a residir’.

c) ‘Vivem aí porque desde sempre viveram ai e não é possível mudar agora’.

Bom, perdi-me na descrição e quase que nunca mais vamos chegar. Mas era mesmo para dizer que vi pela primeira vez aquelas comunidades de humanos dentro do Parque. E acredito que só insistem em viver aí simplesmente porque pensam e são consistentes no seu pensamento em viver aí. E porque os uns pensamentos insistentes atraem tudo pensado, para o caso vertente a coragem, a protecção, a renitência, etc. Por outro lado, acredito que as comunidades têm medo de mudar do seu habitat. E é comum nos pensamentos fortes e fracos simultaneamente, ter-se medo de mudanças. As mudanças, pequenas ou grandes, são muitas das vezes difíceis de gerir e criam insegurança e conflitos. Pelo contrário, todos os indivíduos, grupos ou comunidades que abraçam conscientemente a mudança sempre colhem grandes sucessos.

Então aquelas comunidades no meio do Parque?


A viagem às Grutas continua!
Já a chegar em Khodzué. Parámos na machamba da família do Tato, aliás na família habitual. Pelo menos assim aquela família o confirmou como hábito. Mais de uma dúzia de membros da mesma família, cuja maioria eram crianças, vieram a correr para a machamba de milho/mapira onde o helicóptero aterrou. Uma emoção grande era legível nos olhos dos dois grupos: os tripulantes ficaram mais apreensivos à cultura folclore e a família louca pelo helicóptero, pelos brancos na sua terra, e sobretudo por ver seu filho Tato descer do luxo do helicóptero no seio de brancos.

Alguns conseguiram controlar-se. Greg levava consigo umas fotos que a equipe da National Geographic outrora tirara nas Grutas com alguns membros desta família.

Nat_geo_1_resized

Jeremias, Greg, James, Bob, Luís e Baptista, com um dos filhos de Luís

Quem está na foto que Greg levou para Khodzué?
Estão na foto os três irmãos: Jeremias, Luís e Baptista. Jeremias foi o primeiro a chegar à nossa pista (machamba). Numa tentativa de andarmos um pouco pela pista encontrámos Luís semi-nu, num riacho bem perto onde provavelmente esteve para tomar banho. É hábito das famílias recônditas tomar banho em riachos que estejam perto das suas habitações. Travámos uma pequena conversa com Luís, todo atrapalhado. Tato teve que lhe pedir para usar suas calças porque afinal tínhamos entre homens a D. Peggy Rockfeller, uma mulher de renome e importância indiscutível no mundo da economia. Peggy Rockfeller, como o nome já alude, pertence a uma das famílias mais abastadas dos Estados Unidos da Amárica. E Peggy esteve aí diante do Luís que só tinha cuecas e camisa.


Embaraços inerentes a africanos?
Como africano, senti um pouco de embaraço devo admitir. Um homem não fica tão despido diante de uma mulher na nossa cultura tradicional africana. Até os homens têm seus próprios sítios de tomar banho separado das mulheres, isto nos cursos de água onde tradicionalmente tomámos banho aqui em África. A cultura das praias é algo que aprendemos da cultura branca. E porque aprendemos, ainda está no processo de assimilação no cerne profundamente africano.

Diga-se bem alto aqui, que Peggy é uma mulher forte e corajosa. Não teve preguiça de nada. Enfrentou connosco o Luís semi-nu, a grande família modelo de famílias africanas das zonas rurais. Peggy inseriu-se naturalmente nesta ambiência e até nalguns casos serviu de suporte ao jovem português do Greg, tarefa que mais desempenhei sempre que necessário. Sobretudo da língua local ao Inglês e vice-versa.

Depois de uma pequena conversa e de ver as fotos que o senhor Greg trazia consigo, notou-se a ausência de Baptista. Consultado o Luís sobre o seu paradeiro, este disse que Baptista andava há já algum tempo doente e não saía de casa. De princípio pensámos que Baptista sofria de malária, já que é comum por esta banda tropical a malária liderar outras doenças endémicas em termos de frequência. Mesmo até na fama de matar muitos bantus, a malária assume uma liderança indiscutível.
Só faltam cientistas para tecerem uma tese forte entre a Malária e o Desenvolvimento. 

Grutas 3_resized

O magnetismo do pensamento humano
Pensamentos predominantes tornam-se magnéticos independentemente da utilidade do que se pensa.

Milagre imprevisível! Baptista que os irmãos afirmaram seguramente ter passado uns dias bastante doente e a piorar ainda, depois de passar uma noite terrível de dores, não resistiu à emoção da visita. Os irmãos explicavam ainda sobre o estado da saúde de Baptista, quando este surpreendentemente desponta no capim onde ainda resistíamos em ouvir e amainar as emoções do encontro. Baptista surgiu com um lencinho a cobrir alguma parte da cabeça. O lenço tendia mais para o lado esquerdo segurado com braço do mesmo lado. A mão não soltava o lencinho (desses lencinhos vulgares que andam no mercado nestes dias). Baptista estava todo radiante e a mostrar grandes esforços de dominar as dores em favor da visita.  Uma cura foi temporariamente operada no subconsciente dele como o psicólogo Jung defende.
O Magnetismo actuou no pensamento dominante do Baptista permitindo-o ganhar a ocasião.

Pouco depois era uma avalanche a chegar à 180 kms/hr. Crianças e senhoras. Cercaram o engenho voador (rude e indiferente a comoção acolhedora) enquanto nós saímos do mato em direcção à pista.

Greg, já habituado, reagia como de sempre, sorridente, amigo, acolhedor e explicador. A confirmar mais uma das suas paixões pelo bem estar do mundo humano, e, aqui no Khodzué -Cheringoma, pela gente africana. Era no entanto o último que visitara a comunidade e a família num passado que se pode considerar recente comparativamente ao Tato, filho daquela gente.

Então Greg estava na melhor posição para explicar alguma coisa ao seu irmão Can e sobrinho sobre onde estávamos e com que gente. A Sra. Peggy, fluentemente comunicável em Língua Portuguesa, não atrasou em perceber nem resistiu. Pôs-se a conversar com as pessoas também. Aí estávamos nós a responder já a algumas perguntas de apresentação. Seguidamente dirigimo-nos todos à casa dessa grande família.

Todos acreditámos que poderíamos encontrar rapidamente com outros membros da comunidade e saudá-los. Alguns minutos foram. Só dois indivíduos adultos a mais é que apareceram. Por sinal ainda primos daquela família. É assim por estas partes. Todos são de alguma forma parentes.

Aí sentámos ainda. Esperávamos pela decisão do lugar da cerimónia para visitar as Grutas. Se dessa vez seria em casa ou mesmo nas Grutas.

Trocámos algumas impressões sempre que as crianças, tantas sentadas ao lado e muito conversadoras, assim o permitiram.

Ficámos sabendo que estes cidadãos andam quase 27 km para chegarem à vila sede e poder fazer algumas comprinhas de coisas como sal, roupa, cadernos para seus filhos (que percorrem 5 km diários) usarem na escola. Também na vila se trataram os documentos oficiais e outras facilidades.

Passámos para conversa da cerimónia. Cerimónia porque tradicionalmente não podemos ir directamente ver as Grutas sem pedir permissão e acompanhamento dos espíritos.

 

É importante saber que
Açúcar, pão, refresco, cerveja, vinho, bolachas, cigarros, uma moeda de qualquer valor são mencionados como sendo coisas que os antepassados comiam. A moeda talvez os antepassados usassem para comprar coisas que a sua capacidade de produção local não podia fornecer. Refiro-me do refresco por exemplo. Fósforos também eram usados pelos antepassados para acender os cigarros, daí que fósforos não podem faltar. Tudo leva a crer que os nossos antepassados, cá em África, andam sempre famintos como nós, os seus descendentes ainda vivos. Para darem-nos alguma bênção e boa companhia, para livrarem-nos dos nossos pecados diante de mistérios fabulosos e perigos eminentes, precisam que os sirvamos aquilo que em vida mais gostavam: comer primeiro!

E 500 Mtn também faziam parte das coisas que os antepassados comiam?

Não! Esses 500 Mt eu é que não sei mesmo explicar para quê? Há quem pense que vão para o Comité de Gestão dos Recursos Naturais. Mas continuo com perguntas. O caminho está cheio de capim. As Grutas por si mesmas dizem nunca conhecer limpeza humana. E não existe ainda nenhum sítio limpo fora das Grutas onde as pessoas podem sentar tomar rancho condignamente. Daí a minha indagação: porque pagar um trabalho não feito? Talvez os 500 Mt sejam para comprar material de limpeza e mover pessoas para o trabalho!

Mesmo Peggy sabe dizer que o caminho da casa desta grande família para as Grutas é protestante!

Quem disser que da casa às Grutas Peggy foi de helicóptero declarou-se mentiroso. Mais uma bravura dela pelas terras de Cheringoma, aliás pelo Moçambique, pela África.

Trajada de calções um tanto quanto curtos para andar num mato cheio de capim, Peggy desafiou a primeira e espontaneamente o caminho de casa para as Grutas, caminho que segundo Greg faz quase dois quilómetros. Todo murado de capim por levantar com as mãos e braços à medida em que se avança. É este caminho para as Grutas que conduziu Peggy, Ken e seu sobrinho, Tato, eu e muitas crianças, algumas senhoras até ao santuário sagrado!

Perguntei, sem preguiça, a Peggy a sensação que teve ao experimentar a avenida desde as casas até as Grutas, avenida que normalmente exige calças, botas, e sobretudo coragem e determinação. Pergunta à que ela simplesmente respondeu que da próxima vez terá que vir trajada de calças. Claro que conversamos em português.

(continua)

TrackBack

TrackBack URL for this entry:
http://my.gorongosa.net/cgi-bin/mt/mt-tb.cgi/123

Post a comment

(If you haven't left a comment here before, you may need to be approved by the site owner before your comment will appear. Until then, it won't appear on the entry. Thanks for waiting.)

About

This page contains a single entry from the blog posted on November 18, 2008 4:25 PM.

The previous post in this blog was Olá Grutas de Khodzué Cheringoma! (parte II).

Many more can be found on the main index page or by looking through the archives.

Hosted by
www.gorongosa.net