« Nhancuco já tem quatro salas novas (parte III) | Main | Nhancuco já tem quatro salas novas (parte I) »

Nhancuco já tem quatro salas novas (parte II)

DJMuala(continuação)

Texto e fotos de DJMuala

Quarta–feira, 23 de Julho de 2008

Vasco não levou as chaves à Maputo!
Vasco afinal deixou as chaves no Chitengo. Contactou com Hendrik ao telefone e situou-o sobre o resto, as chaves do escritório do Departamento para a Comunicação.

Hendrik, esquecido do meu número de telefone, talvez porque recebera novo telefone e quem sabe novo número naquela empresa (onde os judeus existem em oposição aos pagãos), teve que mandar o colega Elias Fazenda para localizar-me. Elias foi à minha tenda. Importunou meu colega Macadona, a quem disse estar a ser chamado pelo Hendrik quando na verdade eu é que era o alvo.

Já estava por acaso há muito a espera do Hendrik que conversava em frente dos escritórios em park homes das Finanças, IT e Administração com algum colega, talvez conversava com o Jacob, chefe dos transportes do sector de Infra-estruturas em reorganização. Esperei. Acabada a conversa deles, Hendrik veio ao meu encontro.

Juntos fomos para o escritório ainda em park homes do Departamento de Comunicação para eu levar a máquina fotográfica. Entrámos eu e Hendrik e retirei a máquina da sua mala vermelha habitual.

Fui passar a noite na vila da Gorongosa porque quis trabalhar um pouco mais a margem de 22 horas, horas que o actual gerador que fornece energia no Chitengo desliga deixando-me muito a desejar.

Hendrik, tomando um comportamento santo, não se opôs. Aceitou naturalmente a companhia de Macadona que se prontificou a dar-lhe a direcção do Telecentro da vila da Gorongosa. Macadona havia se prontificado igualmente para dar a direcção do Telecentro da Gorongosa ao motorista que passaria a pegar-me no dia seguinte para a cerimónia de inauguração das salas novas de aulas de Nhancuco.

Foi tudo conforme. Garantido o transporte pelo Hendrik que ficara com a missão de requisitar um motorista. Pareceu-me um assunto menos importante. Hendrik não disse nada antes das oito horas do dia sagrado para Nhancuco. Consultei telefonicamente o Macadona, voluntário em dar endereço do local de encontro. Interessava-me saber se o programa estava conforme. Nada estava adiado mesmo com a chuva que se fazia sentir logo de manhã.

No Chitengo não havia nenhum chefe nesta semana. Todos tinham partido para Maputo entre os dias dezoito e vinte. Foram para uma reunião de balanço trimestral. Ficámos só elementos para manter o trabalho ao longo da semana. Os últimos a saírem foram Greg e sua visitante, que depois de me despedirem na nossa Mediateca partiram rumo à cidade Beira de helicóptero.

Esperar é a regra para os carentes. Esperei pelo transporte como se espera um chapa-cem. Umas horas da manhã passaram enquanto estive de pé na varanda do Telecentro a reparar para o lado da Beira por onde viria o carro. O Parque fica na direcção da Beira para quem estiver na vila da Gorongosa. Duas horas passaram a reparar para o único lado.

Misturava entre incertezas e irritações de molhas sempre que eu saísse para fora da varanda convidado por um ruído de alguma viatura qualquer que viesse naquela direcção porque fora uma manhã com chuviscos, sobretudo na vila da Gorongosa. Como eu não sabia a cor da viatura que viria, toda e qualquer viatura que viesse na direcção da Beira movia com minhas entranhas. Minha adrenalina subia cada hora que passasse sem ver o chegar da viatura esperada.

Pouco a pouco foram chegando alguns conhecidos meus que me fizeram companhia. Já a aumentar o número de companheiros vimos chegar um Nissan branco com o timbre do Parque (um colante com imagem de um leão) colada nos dois lados das portas, este sinal característico de qualquer viatura do Parque. Era conduzido pelo Erasmo, motorista do Departamento de Desenvolvimento Humano.

O Departamento de Desenvolvimento Humano é mistério entre paixão fanática por assuntos sociais e se esforça por concretizar esta paixão. Com os seus sucessos e fracassos, este departamento procura fazer-se presente na vida das CZDS do PNG. Na vez da inauguração das quatro salas, para além do motorista Erasmo, eu também fiz-me presente embora convidado pelo Hendrik para este evento. Os nossos departamentos são uma forma de ter um determinado grupo de trabalhadores empenhados em desenvolver alguma tarefa específica a exemplo de trabalhos em grupo. No fim partilhamos tudo por todos e nos ajudamos a ir para frente num espírito de uma mesma equipa do PRPNG.

Chegou o motorista. De aspecto simples, pareceu-me um pouco confuso e incerto se ia ao encontro de um chefe ou de um amigo. Erasmo nunca tinha estado perto de mim como desta vez, e se esforçava por ser mais formal, menos natural e relaxado. Levou-me. Li no seu comportamento a atitude “estranha” de um moçambicano diante de um chefe. Aliás, não é sempre assim em todas as sociedades instáveis onde os chefes são deuses temidos, donos intocáveis e vingativos? Um chefe numa sociedade instável é um ídolo chato que a qualquer altura pode despedir qualquer seu subordinado do emprego. Pelo menos é assim que a gente esta habituada a ver nas empresas ditas das sociedades de instabilidade social.

Erasmo primeiro interpretou-me como um desses chefes, dos quais está sempre habituado a ser o que pode ser diante de um chefe para agradá-lo e ser aprovado bom motorista. Deixei-lhe um tempo para perceber-me que nem chefe mesmo sou. Mais tarde venci a luta de persuadi-lo da minha real posição: um simples colega dele, tão colega quanto ele o é para mim.
Erasmo veio do Parque na companhia de alguma gente também colega no carro. Um deles saiu de frente para trás do carro. Deu-me espaço. Suponho que me entendeu na tradição de chefe e de um dos donos da viagem. O clima e o circuito de informações no sector laboral é um assunto e muitos vivem na insegurança e hipocrisia. Uma incerteza laboral que pode acidentalmente trair. Uma das doenças dos projectos é os chefes poderem rescindir o contrato do trabalhador a qualquer altura. O PRPNG é um projecto. Então todo o cuidado é menor para quem já conseguiu aí o seu posto de trabalho. Sobretudo os subordinados, cada um procura preservar a sua imagem com vassalagens e “fenhedorismos”. Então o colega desceu de frente onde esteve comodamente sentado para me dar espaço. Senti alguns complexos para assumir o lugar. Enquadrava-me atrás, mas... o sucedido tinha mesmo sucedido. Tentei persuadir o mutante para manter-se no seu lugar, mas aquele tinha suas posições muito bem claras, não era para persuasão.

Aceitei o lugar cedido com muita pena e não disse nada. Só avançámos. O Hendrik precisava de saber da situação meteorológica de Nhancuco para poder ir de helicóptero. Tinha as excelências na sua companhia. Hendrik representava oficialmente o PNG, embora se tivesse lembrado de convidar-me para a viagem. Eu quis lhe ser útil nesta missão como sempre quis ser útil de acordo com as minhas humildes potencialidades. Então fomos a Nhancuco no meio de chuva na vila da Gorongosa e chuviscos à medida em que afastávamos da vila.

Qualquer paragem, quer fosse para comprar bananas incomodava-me. O desejo de utilidade sempre conduziu-me. Esta era uma das ocasiões a não desperdiçar. Buscámos chegar o mais rápido possível a Nhancuco. Como de hábito, quando se procura atingir qualquer alvo, obstáculos nunca gazetam. É sempre assim. A coragem, a determinação, a famosa sorte, um pouco de prós e contras juntam-se no processo. E na nossa viagem a Nhancuco tivemos esses momentos.

A minha pressa era para chegar mais rápido, ler o estado do tempo em Nhancuco e situar ao Hendrik que viria de helicóptero. Para os colegas das infra-estruturas que vieram no carro, a pressa era para chegar e pregar o dístico tapado a vermelho abaixo, marco importante da cerimónia de inauguração. 

IMG_3572 L 

Dístico depois de fixado e encoberto para a inauguração.

Entretanto, um camião igualmente atrasado e cheio de carteiras para mesmas salas intrometeu-se a frente de nós num terreno lamacento e escorregadio. No princípio estava tudo óptimo, porque percorríamos um terreno comparativamente menos sinuoso. Porém adiante a frustração foi enorme. Mesmo a equipe do administrador do distrito da Gorongosa e alguns membros da delegação provincial tiveram que descer dos seus carros para darem juízo ao motorista do camião que entalara-se num terreno consideravelmente plano em relação ao vale que acabara de superar depois de duas investidas sem sucessos na tentativa de subir a prova mais cara para um motorista depois das chuvas em pleno terreno do vale do Murombodzi.

Moreza (da equipe do administrador da Gorongosa) foi o primeiro a descer do seu carro para ajudar o motorista do camião que já enfrentava algumas dificuldades em frente do nosso carro. Formou-se aí, rapidamente, um comboio com suas carruagens. Nós seguíamos atrás do camião. Atrás de nós chegaram muitos outros carros ligeiros que traziam delegações distrital e provincial para a cerimónia, nesses eventos não são todos que usam a via aérea. Dadas as dificuldades da cabeça do comboio liderar a marcha, viu-se a necessidade das carruagens liderarem a marcha, os carros ligeiros. Só foi uma inversão. Moreza, cansado de espera, desceu do seu carro enquanto o camião mostrava as sua últimas catas, subiu no nosso que seguia atrás do camião e só por 180 segundos. Começara a gincana do camião em frente. Seguiu o Moreza uma onda de peritos na condução entre os quais o administrador do distrito da Gorongosa, a quem saudei apertando-o a mão. Lá foram eles a pé primeiro atrás do camião, depois passaram lateralmente para a frente e conseguiram instruir o motorista do engenho a seguir as regras da condução: ceder espaço para as viaturas mais ligeiras ganharem o tempo. O camião encostou. Abriu-se, ao lado direito do camião, um pequeno desvio por onde os ligeiros passaram com o seu direito!

Fomos à Nhancuco que ainda ficava à um bom pedaço de distância do local onde deixámos o camião. Chegámos e vi que as condições do tempo localmente favoreciam para um helicóptero aterrar. Comuniquei ao representante do PNG, Hendrik, para voar e trazer as excelências esperadas para a inauguração das salas novas de Nhancuco. As delegações que normalmente chegam primeiro aos locais dos eventos, talvez para reconhecer se as condições aí não levantam suspeitas conspiracionais, já tinham chegado e estavam calmas. Tudo indicava que as excelências podiam aterrar e presidir a cerimónia de inauguração. A morte é mais chefe tirano destemido que a própria “ignorância” para a qual se construiu as salas para combater. 
 
IMG_3571 L

As quatro salas novas de Nhancuco.

Procurei logo a senhora Maria João Barbosa, responsável do programa e da organização do evento em Nhancuco. Maria Barbosa encarrega-se, por sinal, de um projecto de Responsabilidade Social dentro da sua instituição, Millennium BIM, projecto chamado por Mais Moçambique Para Mim. É um sector vocacionado a responder pela componente social dentro do grande Banco Internacional de Moçambique. Por isso mesmo, Maria esteve na comunidade de Nhancuco para participar da inauguração e entrega das quatro salas para a comunidade local. O equivalente a este sector do BIM, no PNG é o Departamento de Desenvolvimento Humano.

Maria Barbosa organizou todos os preparativos, por parte do Banco, para a cerimónia do dia. Apresentei a Maria Barbosa os homens do departamento das infra-estruturas que o PRPNG enviou para ajudarem nos preparativos; fixar o dístico da cerimónia da inauguração, gesto que ela muito apreciou e agradeceu. Maria Barbosa tem um jeito de ser diferente, nasceu mesmo para assuntos sociais. Logo a primeira que nos encontrámos com ela ficamos impressionados pelo gesto bastante acolhedor. É sempre assim, em cada instituição não faltam pessoas com um carisma naturalmente social. No Parque da Gorongosa também temos um Maria Barbosa que a primeira nos faz sentir muito a vontade. Basta visitar este Parque e o seu acampamento – Chitengo – nestes dias enquanto alguns ainda estão a trabalhar aqui e as qualidades profundamente sociais ainda fazem parte da equipa.

Maria Barbosa percebeu e confiou-nos sem histórias nem preconceitos, embora nunca nos tivesse visto antes. Acolheu calorosamente aos dois mestres enviados pelo PRPNG e a mim também. Não tínhamos, por acaso, aspecto que convidasse muita importância nem pretendemos isso. Até porque os dois meus colegas estavam fardados de seus equipamentos de trabalho:

 Meus colegas

Meus colegas enviados pelo PRPNG para fixar o dístico de inauguração das salas de Nhancuco,

Maria entregou-lhes a missão de profissionalmente fixarem o símbolo. Maria foi distribuindo, sem trapalhice nem tendência nenhuma, a sua amabilidade por todos ai presentes, dando a cada um a correspondida quantidade de chá que sua chávena pedia naquele dia. Pelo menos foi assim que muitos e eu inclusivamente experimentámos desta vocacionada do Millennium Bim. Sim Maria, talentos não se compram, embora alguns precisem de cultivá-los enquanto outros os têm por doação de Deus!

Se eu fosse instituição com vocação genuinamente social e humanitária certamente puxava estes dons, estes génios sociais que temperam carismaticamente as tantas empresas para constituir uma turma exemplar de harmonia e paz equilibrados!

Avancei resistindo chupar o pedaço de mel até ao fim. Eu queria ter a história evolutiva das antigas salas de Nhancuco para as novas e modernas salas. E era uma guerra interior entre partir e ficar. Havia muita razão para ficar, como havia para partir. Estava em jogo a questão humana e o que me levou a ir para Nhancuco. Tive de partir repreendendo o natural, o espontâneo, o original em mim a favor do artificial, do pão, do bem para minha humilde família, ... chamando Erasmo, parti para as antigas salas de caniço de Nhancuco.

O coordenador da zip de escolas da zona, Armando Jossias, distribuía, na circunstância, camisetas aos motoristas e outras entidades que achou credenciadas. Parei um pouco até que meu motorista também tivesse o mérito que lhe foi reconhecido sem hesitação nem demora. Depois avançámos para o segundo destino.

Já no pequeno destino, encontrei o chefe da SISE distrital da Gorongosa com quem troquei algumas impressões cândidas. Pesquei a rede da Mcel, na tentativa de enfatizar mais o estado do tempo ao meu chefe Hendrik. Porém, pouco depois chegaram de novo, como naquele sítio de camião, muitos outros carros ligeiros atrás de nós nas antigas salas, um dos quais trouxe o administrador do distrito da Gorongosa, João Oliveira, que nos ordenou sair do local sem demoras. Seríamos um importúnio para as excelências descerem enquanto uns tantos estávamos aí?

João Oliveira só queria três carros para receber os que viriam de helicóptero do PNG. Saímos obedientes de volta ao primeiro destino para as novas salas de aulas. 

Caminho 

A via que sai das antigas salas anexas e conduz às novas.

Dando boleia ao nosso colega Ângelo, voltámos ao centro da história do dia: às novas salas de aulas de Nhancuco. Eu já tinha alcançado o meu objectivo de fotografar as antigas salas e historiar uma desejada mudança positiva do precário ao normal.
Já nas novas salas, fui tirando algumas fotografias dos já aí reunidos e à espera da delegação.
 
IMG_3573 l

Os alunos e alunas estão num forte ensaio de canções para a festa da inauguração.

Enquanto as crianças ensaiam suas canções, os adultos lado a lado foram afixando tudo, os dísticos, a mesa da cerimónia, o lugar e artigos de ntsembe , entre outros preparativos.

Pouco depois chegou o helicóptero, que no princípio ia aterrar mesmo no pátio das salas novas, mas foi acenado para ir aterrar na sua pista habitual, no pátio das antigas salas lá mais para cima de onde fomos corridos. 

IMG_3574 L 

Bertus, piloto do helicóptero, não desobedeceu. Levou o seu engenho mais para frente onde ele bem conhece. Lá para cima estavam os três carros preparados para trazer as excelências ao lugar da cerimónia de inauguração.

Penso que a aterragem naquele sítio das antigas salas tinha um objectivo: mostrar às excelências as instalações em decadência e as em ascendência. Mesmo Peggy Rockefeller e Rebecca Peterson (duas americanas que se impressionaram por Nhancuco e pelas salas) poderiam adorar se estivessem presente porque sabem da construção destas salas.

Descidos do helicóptero, as excelências chegaram às novas salas em carros. 

IMG_3588 L

As excelências a chegarem no local da cerimónia de carro.

Depois de aterrarem no quintal das antigas salas anexas lá mais para cima, as excelências vieram em dois carros para as novas salas anexas. A expectativa era enorme nas crianças e adultos com se pode ver pela posição das cabeças. Era como se de hino se tratasse. Os nossos representantes são muito venerados por nós pelo menos cá nas zonas rurais que os vemos em ocasiões especiais como estas.

IMG_3589 L

O segundo carro que trazia mais outros dignitários para inauguração das salas de Nhancuco.

Chegaram, desceram dos carros, saudaram a comunidade aí presentes, entre locais e vindouros, líderes tradicionais e outros do governo distrital e provincial e motoristas que os esperavam.

IMG_3590 L

Descidos dos carros, as excelências saúdam os presentes apertando mãos a alguns.

O governador é o primeiro a estender a mão para saudar cada um dos chefes, representantes e líderes comunitários aí presentes. Algumas caras dos nossos chefes locais misturam entre emoção, medo, coragem, falta de intimidade e grande honra de apertar mão aos altos dirigentes como o governador. Uma grande realização se deixa antever em cada um deles. Outros nessas situações nem conseguem levantar a cara para encarar o chefe, o seu próprio chefe. Inventa-se um alvo qualquer onde descarregar a vista e disfarçar quando se está diante de um superior. Reparar directamente nos olhos do chefe é falta de respeito!?! É uma questão cultural evitar reparar fixamente no semblante de um chefe. Só o chefe esse sim, pode reparar fixamente no semblante do seu subordinado e não é falta de respeito nenhum! Poucos são os subordinados que se atrevem a erguer a cara e encarar a cara do grande chefe com alguma naturalidade.

IMG_3591 L

Governador da província a saudar o presidente do conselho da escola de Murombodzi.

A saudação se limita a alguns chefes e aqueles cujo protocolo votou e os organizou numa dada posição. Para criar um ritmo e evitar espaços vazios os batuques começaram imediatamente. Tudo fica bem articulado de tal modo que não existe, nestas ocasiões, momentos que não estejam preenchidos por alguma acção prevista. A cerimónia de Nhancuco seguiu a regra.

As manifestações culturais locais estão previstas para recrear e criar uma motivação apropriada ao trabalho. Sempre surpreendem o espírito por mais que alguém os tenha assistido várias vezes, têm na regra algo invulgar que chama um sorriso para as caras dos presentes.
 
IMG_3594 L

Um sorriso forte escapa do controlo de muitos e desponta para fora de bocas.

Era tudo no meio de batucada e dança tradicionais mais características da zona, e geralmente só leva alguns instantes, onde tudo começou a tomar corpo. Durante as danças os sorrisos escondidos espreitam fora, normalmente vive-se uma atmosfera muito quente onde nós, os locais, onde procuramos no máximo mostrar a nossa capacidade cultural folclore e os vindouros, já habituados a outras culturas diferentes da nossa, encontram uma das memoráveis graças e recreiam-se na verdade. 

IMG_3597 L

Tradicionalmente é comum alguma manifestação cultural típica da região em visita.

Pouco depois os hóspedes, presos aos seus horários rígidos, seguem para outros momentos do evento. Nós porém continuámos por alguns instantes porque afinal as danças seguem um ritmo que não se deve abandonar bruscamente antes de se atingir a última nota final.

IMG_3598 L

Manifestação cultural típica da região.

A comitiva seguiu para o lugar onde estava o régulo Canda já preparado para presidir o tradicional ntsembe. Localmente, qualquer evento de maior impacto na vida da comunidade ou do visitante faz-se depois de se passar pelo culto de ntsembe que convida os espíritos dos nossos antepassados a fazerem parte e acompanharem a situação.

É aparente a admiração do Administrador do Millennium BIM Moçambique, João Figueiredo (o homem que ficou tão impressionado com as condições da anterior escola de Nhncuco que decidiu financiar a nova escola) que provavelmente menos habituados a estes ritos africanos seguidos no interior do país precisa de algum momento para aceitar e conformar-se!
Vaquina, sábio governador da província de Sofala, certamente mais habituado a estes ritos nos seus contactos com o interior, mostra-se menos admirado, assim como o próprio administrador Gorongosa também está habituado.

IMG_3599 L

Régulo Canda já preparado para presidir à cerimónia.

Pouco depois começou o culto do ntsembe. O culto local demorou mais do que os batuques e danças de recepção e saudação. O governador da província, mais sereno e iluminado e talvez por força do hábito a estes ritos nos seus trabalhos com as comunidades, pacientemente foi cumprindo o culto a seus avós (se é que partilha do africanismo) debaixo desta. Todos os presentes tiveram que submeter-se ao culto, para seguidamente aturar-se os cultos alheios a cultura africana.

Nada é mais frágil de despertar que a minha curiosidade: porque é que nestas cerimónias sempre se começa por um culto local e depois segue-se aos cultos assimilados?

Crê-se publicamente que os últimos a rir riem-se melhor, não será verdade que os últimos cultos e discursos levam a melhor que o ntsembe inicial?

Sempre quis acreditar por experiência que os donos de uma casa abrem a porta ao hóspede quer para entrar quer para sair. Por que é que o culto não se divide em parte inicial e final para deixar os donos da casa fecharem as portas? Talvez quando o hóspede é mais importante que o dono da casa então ao sair abre sozinho e fecha a porta diante dos donos! Lá foi o culto do ntsembe.

IMG_3609 L

O ntsembe presidido pelo régulo Canda porque Nhancuco fica dentro do seu regulado.

É quase hábito fazer as cerimónias (ntsembe e outras públicas) de ligação com os nossos antepassados em Nhancuco debaixo de árvores ou em locais especiais como em elevações montanhosas e rios, etc.

 ATT00107

Exemplo de um dos locais onde as nossas cerimónias tradicionais são feitas para pedir chuva.

Parece que em todas as cerimónias oficiais ou tradicionais a bebida não pode faltar, pelo menos é o que fica evidente em todas as cerimónias locais que temos assistido. Nas cerimónias tradicionais não só os nossos antepassados bebem como também os representantes têm o direito de saborear a bebida.

Contrariamente aos discursos, o servir de algo consumível sempre começa com o mais velho da equipa, ou seja começa com o mais chefe dos outros chefes aí presentes.

Lembre-se que o protocolo não falta em ambos lados, é este que serve os presentes algo para consumir ou os lugares para os hóspedes se sentarem.

IMG_3612 L

O chefe máximo da delegação é o primeiro a ser servido pelo protocolo tradicional.

IMG_3613 L

O Administrador do Millennium BIM precisa de familiarizar-se e por isso é incitado a perceber a regra.

O Millennium BIM deve construir mais infra-estruturas sociais para o seu Administrador frequentar e habituar-se as regras locais nos cultos folclores. Assim terá mais oportunidade de perceber como o interior vive comparativamente aos hábitos citadinos.

IMG_3614 L

Já percebeu a regra e segue normalmente a regra. Não interessa a qualidade de bebida, mas o seguir da norma.

O dono da casa aqui é último a ser servido. O protocolo já foi bem instruído e não vai falhar ao servir. É uma questão de hierarquia nestas personagens tipo. Os mais velhos primeiro, depois o mais novo em cada circunstância.

IMG_3615 L

Contrariamente ao habitual, aqui o dono da casa é o último a consumir.

Todos os cultos do dia envolveram alguma bebida, no ntsembe tradicional serviu-se vinho, na abertura do dístico serviu-se o champanhe. A diferença que consegui notar é que na cerimónia tradicional, primeiro serviu-se aos nossos antepassados depois serviu-se aos vivos. Enquanto que na cerimónia oficial, só os vivos tomaram sem servir aos seus avós. Aliás, no ntsembe o jovem protocolo serviu aos hóspedes. Ao brindar-se o champanhe não vi o régulo a ser servido uma taça de champanhe!

Findo o ntsembe seguiu-se para a inauguração das salas anexas de Nhancuco. Saindo de um extremo das salas onde se fez a cerimónia de ntsembe para onde está o dístico que o governador da província vai inaugurar.

IMG_3618 L

Deslocação para o local onde foi fixado o dístico de inauguração.

A inauguração, o pano roxo está nas mãos do governador. Mas há uma barreira de pessoas que impede a boa visualização do momento.

IMG_3620 L

Hendrik Pott (representante do PRPNG no dia) debaixo do dístico.

Já inauguradas as salas com a abertura do dístico. E segue-se o champanhe.

IMG_3621 L

Governador Vaquina abrindo a champanhe diante de um público atento para logo aplaudir.

Como de regra, há uma grande salva de palmas quando se abre o champanhe. Os sorrisos não gazetam mesmo nos que se pretendam mais sérios que os outros nestas ocasiões. Aí a seriedade se relativiza ou se torna mesmo ridícula. Festa é festa e festa é alegria e alegria reconhece o sorriso como companheiro convidado.

IMG_3622 L

Quando chefiar é servir e não ser servido os servidos legitimam o poder do servente por consentimento.

Um esforço de responsabilidade humilde faz do governador indiferente aos aplausos e enquanto os outros gaudeiam-se, Vaquina continua a servir nas taças o líquido que muitos avidamente anseiam. As glândulas salivares activadas pelo arco/acto reflexo segregam com certeza. Mas a aluna, esta sim, não deve perceber muito de champanhe.

Cada um dos presentes com direito pega na taça mais próxima enquanto uns esperam ser servidos e outros até só conseguiram ver a garrafa de longe.

É regra que a minoria constitui com ou sem razão a elite abençoada, com plenos direitos sobre os outros. Só não há revoltas quando o poder é consentido e jamais imposto.

Pena é que os que muito se esforçaram não foram reconhecidos neste jogo. Veja-se que a Maria Barbosa só tem a sua máquina a fotografar depois de ter organizado o evento todo. Para ela aí, parece-me que só deve trabalhar e é isso que espera e que ela faz!

Ganha depois se lhe fizerem justiça atrasada!

IMG_3624 L

Então cada qual pega na sua taça e a Maria (organizadora) fotografa.

Cada qual com a sua taça é a hora do brinde. E daí os sorrisos são contagiosos mesmo para indivíduos distantes.

IMG_3625 L

A fase mais venerada do culto.

Estes ganham as salas e a honra, pós não têm idade para “champanhar” ainda! Ganham por toda a vida quando puderem aproveitar das salas devidamente.

IMG_3628 L

Seguras que as salas ficam consigo, as criança não reclamam o champanhe nem o director Sábado.

Com algum champanhe nas cabeças as lindas salas tornavam-se lindíssimas e aguçava a inspiração. Começando no corredor das salas vai se entrando e saindo de uma sala para a outra. Tudo foi andando da melhor forma pois não é aí o lugar de intimidações nem de críticas abertas entre os vivos. E tudo começara a dar bem, desde a cerimónia de ntsembe.
 
(continua)

 

TrackBack

TrackBack URL for this entry:
http://my.gorongosa.net/cgi-bin/mt/mt-tb.cgi/121

Post a comment

(If you haven't left a comment here before, you may need to be approved by the site owner before your comment will appear. Until then, it won't appear on the entry. Thanks for waiting.)

About

This page contains a single entry from the blog posted on November 17, 2008 6:20 PM.

The previous post in this blog was Nhancuco já tem quatro salas novas (parte III).

The next post in this blog is Nhancuco já tem quatro salas novas (parte I).

Many more can be found on the main index page or by looking through the archives.

Hosted by
www.gorongosa.net