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Majestosa digressão à Serra da Gorongosa (parte I)

DJMualaPor DJ Muala

Quinta-Feira: 5 de Junho de 2008


De Chitengo às Cascatas do Murombodzi
Duas horas de uma viagem ambivalente pelas paisagens míticas

Local de partida: Chitengo

Já tínhamos começado com o segundo quarto das oito horas, quando Vasco Galante, depois de servir os assentos a todos e a mim também, sentou-se oposto ao Greg Carr. O filantropo americano sentara-se nas últimas cadeiras traseiras, lado a lado com a nossa VIP do dia, a jornalista da CBS (TV norte-americana), Rebecca Peterson. E eu claro estava oposto a Rebecca. À frente sentara-se o jornalista do Parque Nacional da Gorongosa (PNG), Carlitos Sunza, ao lado do piloto Bertus. O termo filantropo aqui simplesmente caracteriza as pessoas que não só buscam o bem-estar de todos por palavras, mas que tudo fazem com acções no seu dia e noite, entregando tudo inclusive as suas próprias energias para o bem de todos.

Posto isto, Bertus iniciou o aparelho sem preguiça.
E já com o ruído assustador “do acordar de uma máquina de seis lugares” que esteve adormecida durante a noite, o piloto atreveu-se ainda a sair para fora do helicóptero para ir verificar se as portas deste estavam bem fechadas. Lembrou-me da sabedoria popular segundo a qual confiar é bom e desconfiar é melhor.

Lá foi ele refechar as portas, as janelas e confirmar o estado do seu transporte antes de descolar. É assim mesmo o que se chama de responsabilidade. Às vezes não basta referir-se a responsabilidade com palavras.

Ficámos adentro. Partilhei algumas experiências de adultos. Ouvi as preocupações de wakulu wakulu (dos graúdos). Adultos que tinham todo o direito de escolher com quem viajar.

Senti-me orgulhoso aí com Greg, Rebecca, Vasco, Carlitos, Bertus. Todavia, ocorreram-me fantasminhas nos primeiros instantes depois de subir e sentar-me com os meus superiores hierárquicos. A VIP Rebecca em frente de mim numa estratégia que Vasco ordenou que sentássemos por formas a que contasse a minha limitada experiência e conhecimento sobre a história da gente da Gorongosa que escrevo e sobre área que sobrevoávamos. Foi uma estratégia que não produziu muitos resultados, uma vez que a diferença de língua frustrava a nossa comunicação.

Aliás, eu tenho como língua oficial o português, com competência de comunicar em inglês e outras línguas e a minha interlocutora tem como língua um o inglês, conhecendo apenas palavras frase do português.

Penso que facilmente ela esquecia-se que ainda podíamos trocar impressões usando a língua inglesa, enquanto vivíamos a emoção de sobrevoar a zona de animais a caminho da floresta tropical mais vasta da região Austral, localizada na Serra da Gorongosa.

Não nos privando do seu sorriso nos primeiros momentos, ela esperou as nossas chuvas de explicações feitas, sobretudo por Vasco e Greg, reportando vários assuntos.

Estavam em foque questões gerais como o nome local a atribuir ao actual Site One, o pequeno quarteirão residencial do PNG reservado ao seu pessoal júnior.

Vasco concorda e enfatiza o seu argumento tomando como base a designação do novo Restaurante do  Chitengo: Chicalango.

Chitengo_resized

Também eram temas de conversa, questões sobre a beleza da fauna bravia à medida em que percorríamos uma parte do grande ecossistema do PNG.
E Rebecca ouvia atenciosamente as conversas. Por vezes entrava na onda e liderava o diálogo.

Para mim, a paisagem parecia um tanto quanto diferente que a de Março que contemplei durante a deslocação às Grutas de Cheringoma. E é óbvio.

O tempo muda tudo ou tudo se muda com o tempo. As coisas mudam. A natureza inanimada e animada muda. Assim como mudam-se os sensações em função do tempo!

Em Março é mais verde, tem muitos charcos e pântanos em todo o lado. E em muitos lugares dentro do Parque, as estradas de quando em vez andam interrompidas com fluxos de águas furiosas e preguiçosas. As árvores em Março não buscam a água. Mas já em Junho a situação é inversa; até as queimadas ameaçam o capim seco, o mesmo capim verde e rebelde que se pode apreciar na passagem do terceiro mês de cada ano civil.

Assim fomos numa direcção paisagística contrária à daquele mês. Desta vez, Greg não fez menção à zona dos elefantes. Antevi nele o prelúdio que a Serra depois viria a causar a todos nós da tripulação duas horas e meia mais tarde. Mas fomos.

Minutos depois de descolarmos, animais recreavam-nos. Por aqui um, por ali em grupos. Até este raro Inhacoso albino fez parte dos animais que vimos naquele dia.

Albino Waterbuck_cropped 
Inhacoso albino: a genética em prova.

Dos outros animais, só não vi quantos eram masculinos ou femininos. Uns corriam espantados pelos motores da aeronave barulhenta. Seguiam os seus instintos de protecção. Sim senhor,  população animal do PNG pouco a pouco está a multiplicar-se.

Os 16 anos de calma no PNG e o Projecto de Restauração deste estão a facilitar a multiplicação de animais. Estes corriam para dentro das suas casas de refúgio – debaixo das árvores!

A aeronave não parou. Sentiu pena das árvores que ficariam despenteadas. Vingadas até por um helicóptero como acontece muitas das vezes nos tectos frágeis das nossas casas por estas bandas de Moçambique. Quando este tipo de engenho voa quase por cima deste tecto miúdo, este chora para os pais o pentearem novamente. E pode levar algumas horas para endireitar os cabelos destes habitats tradicionais. As nossas palhotas.

Coitada das árvores! Os animais ainda podem, graças à sua capacidade animal, escapar-se da presença de caçadores/furtivos.


Bela-Vista
Pouco depois estávamos em Bela-Vista.
Vasco mostrou umas três ruínas que bem pude ver abaixo. E explicou-nos o que se pretendeu fazer aí na era colonial - um lodge turístico. Uma estrutura gigante ainda de pé aí à espera de possível socorro. Estrutura que viria a ser um restaurante. Outras estruturas minúsculas ao lado, adivinhadamente dormitórios para aquele lodge estratégico.
 
Bela-Vista significa unicamente Bela-Vista. É só sair um pouco das metaforizações da vida e imaginar termo por termo do composto. Mesmo no nosso português da Gorongosa, ainda se pode perceber o essencial de cada elemento dessa justaposição.  Se se tiver ainda dificuldades de perceber, então substitui-se os termos: Bela-Visão. Visão dos espaços abertos daí em diante. O bem pensado lodge da era colonial situa-se numa das elevações características daquela zona, cuja diferença está no facto de aquela elevação ser a mais eminente possível que permite um visual majestoso sobre os restantes espaços com excepção da zona pós-Serra.

Como chegar à Bela-Vista?
Para chegar à Bela-Vista segue-se uma estrada que, saindo de Chitengo, passa por aquele sítio e continua para outras partes do Parque. Um posto de fiscalização do Parque quis ser vizinho da Bela-Vista.

Diligentemente perguntei ao nosso explicador incansável se havia um plano de se recuperar àquelas infra-estruturas num futuro próximo, já que se está a restaurar os animais, as infra-estruturas turísticas de Chitengo, as comunidades vizinhas do PNG, ao que Vasco, sem preguiça disse constar nos programas.

À medida que vamos saindo do Parque, abundam canteiros de um verde carregado alternado com espaços castanho-louro em algumas partes. O verde é de árvores. Grandes ou pequenas. Capim fez-se castanho por estar seco, violentado pelo sol e desertado pelo maná da época finda.

Já fora do Parque o cenário é inverso. Muito castanho-louro minguado de algum verde de mangueiras, obviamente. Salvo ao longo de cursinhos de água onde ainda se pode ver algum verde carregado. O castanho aqui já é bastante inquietante à mente. As casas despontam no meio de algum desse castanho.

Minas de ouro em Tsiquir

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Vista aérea das minas de Tsiquir.

Salve o habitat e refúgio dos animais!
Também os adultos fogem do ruído do helicóptero!
Que adulto foge e porquê? Quando está a explorar o ouro nas minas de Tsiquir.

Correram das minas para fora. Para se esconderem no mato. Provavelmente porque as suas casas ficam longe daqueles jazigos. Como é que estes animais (se animal significa mobilidade física), coincidentemente encontraram debaixo das árvores o seu refúgio uma vez dominados pelo medo? Uns animais (racionais) exploravam ilegalmente o ouro das minas de Tsiquir e recorreram para debaixo das árvores. Já dentro do Parque outros animais (irracionais) também estavam a lutar pela sobrevivência – comiam e buscavam como comer. Surpresos pelo ruído, sem pensar procuraram as árvores. Árvores, árvores!

Árvore, única protectora de vidas.
Dois incidentes simultâneos envolvendo comportamentos animais em relação às árvores. Dois factos imprevisíveis. E testemunhados por seis pessoas. Animais que instintivamente tiveram que recorrer às árvores para se protegerem de um perigo eminente. Sabiam que não se iam arrepender.

Até a Mãe Terra que nos sustenta recorre às árvores para dar mais vidas. Para poder ganhar mais a sua permanência na corrida orbital e orgulhar-se no grupo dos outros planetas a terra apoia-se só nas árvores! Com estas ela consegue os animais, as chuvas, a humidade, as outras vidas. Só com animais ela não consegue nenhuma árvore. E simplesmente perde o estatuto no seio dos outros concorrentes (planetas e astros) em conquistar vidas para si.

Porquê os humanos naquele sítio quando primeiro ouviram e por fim viram o helicóptero se puseram em fuga para debaixo das árvores? E os animais (irracionais) dentro do Parque?
Haverá uma inteligibilidade mútua entre os dois comportamentos?
Que consciência para os racionais de Tsiquir?
 
Quase que me deixavam acreditar que a limitação humana está bastante confinada. Impossibilitados até de prever com certeza cada instante da vida.

Todavia, algum Tomé da Bíblia ainda resiste.  Uns tantos teimosos aí os vi de pé, inertes. Não fugiram para o mato. Mesmo depois de darmos duas voltas por cima das minas. Continuaram imóveis e entretidos.

Com que se parecem aquelas minas?
Uma grande colónia de buracos escavados no subsolo. E com os humanos aí por fora e dentro dos buracos, vistos de cima, lembram-me a dinâmica de formigas a entrar e sair de suas casas cada uma com sua trouxa. E as trouxas daquelas formigas aí abaixo são pedras escavadas abaixo e trazidas acima para a inspecção pelas águas e pelo venenoso mercúrio. Inspecciona-se o fugidio ouro. Tão raro de encontrar como a sabedoria. Onde fica a água e o mercúrio da sabedoria?

De cima os buracos fazem autênticos poços de água a espera de anilhas para colmatarem a carência do precioso líquido nas povoações. E o bairro de Tsiquir teria o verdadeiro ouro para todos se aqueles poços aceitassem anilhas e tampas. Água potável para o consumo naquelas comunidades que tanto a precisam. Para aquelas povoações vizinhas que depois de colaborarem para a escassez dos depósitos, vêem nos restantes poucos rios periódicos e os poucos furos como solução da crise do líquido vitalício indispensável. Esta é uma geração herdeira tradicional das práticas que pedem reajustes contextualizados.

E os Tomés, com o comportamento de querer acreditar depois de ver, ainda continuarão presentes em muitos humanos - os famosos teimosos. E os teimosos continuaram de pé aí fora de umas minas.

Ainda em Tsiquir ficou nítida a presença da acção destruidora humana frequentemente ligada a necessidade de sobrevivência: a prática de agricultura denominada por slash and burn (mathema localmente). Carecas nos cimos, nas encostas e vales das elevações montanhosas assim como carecas justificáveis nos grandes quintais habitacionais.

É interessante perceber como as comunidades locais crescem vertiginosamente: poucos quintais são os têm uma casa. Muitos têm cinco ou mais casas. Com a casa dos pais por vezes no centro e as dos filhos/filhas à volta da do pai. Um agregado familiar cada vez mais medrante. A planificação da natalidade aqui antes pede a planificação do número de esposas e de “chindes” (as mulheres sucursais). E ser mulher de alguém é ter com ele pelo menos uma criança. E as chindes? Estas reconhecem o menor número de homens na Gorongosa, mas não reconhecem o menor de crianças a fazer com os poucos homens existentes!

Assim vi tanta concentração de casas no mesmo quintal. E tantos quintais similares. Não duvido que cada família tem no princípio uma grande machamba. Comum a todos os membros da família. Quando ainda sob controlo total dos pais. E à medida que as crianças vão crescendo em idade e em responsabilidade vão se desintegrando da grande machamba da família e praticando os seus próprios mathemas. A abrir tenazmente suas próprias machambas aqueles adolescentes, que se casam ou se engravidam em tenra idade e depois são entregues as menininhas grávidas, ainda na adolescência formam seus lares. E assim pela regra, tornam–se nos responsáveis de casas. Tornam-se em pais com uma machamba comum junto com os seus membros de família.

Ás vezes mesmo faz-se uma separação empreendedora, seguindo a onda do século iniciado por Santo Mosca - da compra e venda de produtos agrícolas nesta parte de Moçambique.
Então a machamba do pai da família intocavelmente fica para fins comerciais. O comércio jacto de géneros alimentícios visto a explodir hoje nas ruas da querida Gorongosa. O interior da Gorongosa não é marginal. E os Santos Moscas deste período são comummente chamados por “manhambanes” (gente vinda de Inhambane).

É prática atada aos nossos dias encontrar aqui na Gorongosa machamba para a mãe/mães, filhos e filhas, netos e netas, primos e primas, todos que partilham o mesmo quintal. Podem ter machambas em espaços diferentes motivados pela compra e venda, pelos ’manhambanes’, dos produtos da machamba. E as machambas saem dos mathemas só as árvores saem a perder nesse circuito vicioso. Assim é no Tsiquir. Assim é em Nhancuco. Assim se vê mesmo na vila da Gorongosa para quem já por aí passou.

Só queria saber onde muitos guardam a sua consciência quando não agem para acordar os que merecem.
Gostava de saber onde fica camuflada a nossa responsabilidade conjunta de velar pelo equilíbrio do nosso habitat - o ecossistema agonizante.

Uma agricultura insustentável cada vez mais devastadora do nosso ecossistema que não é invertida. Talvez porque é mais barato comer que criticar o processo que traz tal comida. E criticar aqui não se confunde com negar, mas analisar e posicionar-se. Urge perceber este dilema de desequilíbrio ecológico ultra-rápido que dificulta já e piora mais no futuro.

Umas duas voltas demos ao lugar das minas. A emoção, que tanto dominei depois de pouco tempo na aeronave voltou a avolumar-se em monstro em mim ao ver grosso modo as minas que sempre só ouvia. A tristeza de não ter máquina fotográfica aí comigo transformou-se em falta de respeito. E perdendo jeito limitei-me a coçar a nossa VIP do dia que trazia sua máquina consigo. Claro uma jornalista não esquece máquina como não lhe falta também. E acudiu-a Vasco, que bem sabia que o Carlitos sentado com o piloto ia filmando pelo menos as paisagens mais marcantes. E as minas de Tsiquir obviamente não são excepção. Até delas se desenvolveu uma conversa afiada entre os três celebres aí atrás. A visitante comentava na possibilidade de se oficializar as minas para as pessoas poderem explorar o ouro de forma clara. Vasco, conhecedor da matéria graças as suas interacções frequentes com as autoridades locais, centrais, põe-se a explicar sucintamente a Rebecca sobre o que se pensa das minas de Tsiquir. E acresce que da última vez que vira aquela extracção a água estava vermelho-acastanhada pela lavagem das pedras nela. E acreditou que o mercúrio ultimamente se usa menos o que já reduz grosso modo a poluição das águas. Estas águas turvas certamente entram no Parque. 

E porque a conversa sobre as minas era em Inglês, dois adjectivos stark e sharp intrometeram-se para contrastar as paisagens naturais que íamos vivendo. Vasco procura esclarecer-se melhor da diferença entre os dois adjectivos na descrição. Greg assume a posição de lexicólogo. Explica a diferença. Usa todos os recursos à sua disposição, como palavras e gestos com as mãos num esforço aparente. E atinge o seu objectivo. Afinal para atingir objectivos é  preciso muito esforço? E nós, o seu auditório, provámos-lhe perceber com clareza a diferença. E a aula do professor de lexicologia, Greg, deu-se por terminada com um feedback do inquisidor. Este associou o sharp com nítido e buscou o stark entre austero e forte e por fim decidiu abandonar a sinonímia. E respondeu Bertus da cabina a confirmar ter percebido a explicação do Greg.

Eu não me pronunciei simplesmente porque a vocação de ser professor nunca foi propriedade de ninguém em particular. É comparável ao negócio/comércio. Todos de alguma forma somos comerciantes de natureza, quer conscientes ou inconscientes. Assim também todos somos professores quer com formação ou sem. São duas práticas inerentes à natureza humana como a própria sombra do corpo e só se complementam com alguma especialização particular.
Mas o helicóptero anda depressa.

Então em Nhancuco
Já a chegar, as conversas mudam de tema. A atenção equilibrada é vocação de Vasco. Muitas vezes até chega a surpreender-nos. Lembrou-se imediatamente de chamar atenção à nossa Rebecca que estávamos já em Nhancuco e a curvar de helicóptero em cima de um dos viveiros de plantas nativas. A Rebecca quis ver o viveiro mesmo de cima. Então todos acenámos com as mãos indicando-lhe a casa que contém inúmeros sacos plásticos com plantas. Mas isso não fazia parte da missão de Bertus. Cabia-lhe sim deixar-nos em Nhancuco e sobrevoar até a comunidade de Murombodzi/kuangueresi, onde foi esperar-nos.

Do capim onde aterrara o engenho, saímos para o quintal da escola primária de Nhancuco. Ummm, ummm! Rapidamente acorreu ao lugar uma média de:

• sete colegas responsáveis dos viveiros sedeados aí em Nhancuco;

• quinze adultos entre os quais 9 mulheres (provavelmente ganharam um intervalo das suas machambas perto da pista em que aterrámos – no capim);

• vinte e oito crianças vestidas à maneira local sem preocupação de higiene corporal e nem no vestuário esfarrapado de que estavam trajados. A estas crianças Greg estendeu suas mãos e passou a saudá-las todas apertando-lhe sim as mãos, estas mãos de crianças que acabavam de sair das suas rotinas diárias da zona: jogar as pedras aos passarinhos, ajudar as mães nos trabalhos das machambas, jogar mago (pedrinhas em buracos no chão poeirento), puxar carrinhos feitos de caniço e latas, etc..., enquanto controlam o tempo de irem às aulas aí pertinho. Também seguimos o bom exemplo de Greg;

O estado físico da actual escola de Nhancuco

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Actual escola de Nhancuco brevemente a ser substituída por salas novas, a quase 800 m deste local.

Andando um pouco pelo pátio da escola deparámo-nos com uma situação lastimável. Um único professor de nome Perino Perino ensinava sozinho em duas salas mistas da escola acima quatro turmas de classes diferentes só naquele período. Acho que é um professor Sócrates!

O que alude a mente é que aquele também filho de Deus, depois teria que encontrar mais a mesma situação nos tempos seguintes e obviamente com alunos diferentes o que o faria circular por pelo menos oito turmas mistas diferentes. Portanto, não menos de dezasseis planos de aulas diferentes a serem efectivadas pelo mesmo professor no mesmo dia.

Talvez um super-homem daria aulas de qualidade que tenham um impacto real e contextualizadas na vida dos alunos de Nhancuco. Caso contrário, seria tudo mecânico, conduzido no espírito de cumprir os programas exigidos nas reuniões  pedagógicas frequentes com outros professores. E como não se reprova naquele estágio escolar, então empurrar todas as crianças para classes seguintes. Depois orgulhar-se de ter sido professor ...

E assim sim vamos formando os cidadãos sábios, autónomos, conscientes, responsáveis, cidadãos que saberão defender os seus direitos e reconhecer os seus deveres cívicos no mundo de amanhã.
Provavelmente é assim um professor deixado à sorte de ninguém nas cidades. Enquanto ele está numa sala a dar instruções para uns alunos mistos, a outra sala está vazia e os alunos daí entregues a desordem. Quem não conhece alunos nunca foi aluno. E não tem culpa nisso, tem?
 
Naquelas salas, simplesmente procurei ver uma carteira. Mas como a vista às vezes ilude, não vi senão blocos de pedras, uns se calhar retirados das ruínas das antigas habitações de Ferrão vendidas para a família do Carlos Palhinha na então era colonial e as ruínas ainda por aí pertinho. Mesmo eu podia ir puxar um bloco e sentar-me nele que sentar-me no chão muito poeirento.

E os quadros das duas salas? Estes pareciam-se com farrapos atados a cordas e pendurados obliquamente a uma abertura de quase 30º graus. Na base os quadros estão suportados por duas estacas espetadas no chão, no lado superior asseguram-se em uma das estacas da construção de palha e caniço. Na parte traseira, os quadros apoiam-se nas próprias estacas da construção. E as aulas? Onde encostam?


Não me envergonham as realidade do interior do meu país. Mas estes factos sempre insistem em não familiarizar-se comigo. E chocam com a reflexão numa era em que desenvolvimento é a política sonante. Não se trata de pensar na electricidade, na informática, nos balões, nos lanches escolares, nos transportes, no vestuário digno e limpo. Naquilo que muitos definem como condições básicas. Aqui se vez com nitidez o relativismo do conceito de condições básicas.

E Vasco, sempre atento, não se esqueceu de apresentar-me ao meu colega de profissão, o desenrascado professor de Nhancuco. E saudei apertando-lhe as mãos com gosto de pegar no giz que poeirava a mão direita do professor. Claro, a mão esquerda dele segura como de hábito nos dextras, o caderno de planificação de onde tira as notas para o quadro.

O acampamento de Nhancuco só nos viu passar pela estrada perto. Mesmo vendo um carro moderno aí estacionado de alguém que fora à Montanha procurar os curandeiros (talvez para curar doenças, talvez para aquele chefe ser mais chefe conforme se crê na ideologia local), à frente foi o nosso caminho.
Penso que era para dar-se uma ideia a nossa Rebecca que pelo menos o estado físico, precariamente crítico, das instalações ora chamadas de escola que acabávamos de ver seria brevemente substituído por umas novas salas de aulas quase prontas a uns oitocentos metros da actual escola ao longo da estrada abaixo. Depois que ganhámos um bom visual das novas salas regressámos seguros que a Rebecca viu as futuras salas melhoradas. O fumo Randinho (daquela área de Nhancuco) não se fez alheio a visita. Caminhou connosco em alguns desses sítios até à casa dos viveiros.

Um dos viveiros em Nhancuco

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Um dos viveiros de árvores nativas em Nhancuco, Serra da Gorongosa.

Ângelo, técnico agrário e supervisor, que vela pelos viveiros depois de tomar banho, juntou-se a nós a caminho do único viveiro que visitámos em frente do acampamento de trabalhadores. Hoje Ângelo teve uma quebra de rotina no seu trabalho. Tinha que explicar-nos e, sobretudo à nossa hóspede, os cinco grupos diferentes de plantas indígenas presentes aí nos plásticos dos viveiros. E em língua inglesa. E os sacos de plástico contendo as plantas estão bem arrumados por espécies diferentes cujos nomes científicos ainda estão por serem postos pelo Tongai, um colega daquela equipa de trabalho.

A curiosidade provocada por aqueles viveiros não desculpou-nos de ver o campo realístico onde tais plantas são aplicadas no reflorestamento das partes carecadas da Serra da Gorongosa. E visitámos um dos campos plantados. Lá estão as plantas. Já em franco desenvolvimento. Reflorestam as antigas machambas já abandonadas e cedidas pelos donos já sensibilizados.

(continua)

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