de Domingos Muala
Para nós quem nos abriu a sorte foi Vasco Galante, o director do Departamento das Comunicações do Parque Nacional da Gorongosa (PNG). Articulou dentro da sua equipa de Gestão do PNG, para que a Páscoa mais exclusiva desta geração, a única Páscoa mais cedo enquanto vivos, fosse por nós indelévelmente acrescida de importância com uma visita ao maravilhoso paraíso de morcegos nos abismos sensacionais de Cheringoma – as Grutas.

É a Vasco e a toda equipa de Gestão do PNG que nós os sete tripulantes: Greg Carr, Can Carr e seu sobrinho, Peggy Rockefeller, Bertus (piloto do elicóptero de), Tato Alexandre e Domingos João Muala endereçamos o nosso mais profundo apreço pela exclusiva oportunidade concedida de irmos desfrutar uma das naturezas ocultas do interior de Cheringoma-Sofala-Moçambique.
O nosso helicóptero descolou da pista do acampamento de Safaris de Chitengo dentro do PNG por volta das dez horas do domingo vinte e três de Março último, com o sentido norte do Parque, como o veterano e patrão Greg o quis. A intenção de Greg era podermos ver alguns elefantes. E talvez prover a nossa mais VIP do dia, pertencente à uma das famílias mais ricas dos Estados Unidos, a Peggy Rockefeller, de um visual verde do fabuloso ecossistema do Vale do Rift salpicado com pântanos e cursos de água por aqui e por alí, na companhia de seu irmão e sobrinho aí presentes na sua primeira vez em tudo destas terras mais naturais do índico.
Foi tudo uma experiência emocional impar. Um mistura entre alegria e surpresa incrível entre nós os mais inexperientes, Tato e Domingos. Para nós foi um sonhar enquanto acordados. E custa-me descrever aqui. Falta-me tudo para trazer vos este triunfo indígena. Só os filhos da inteligência conseguiriam descrever aos outros tal experiência interior. Vou tentar dando um cheirinho: eu e o Tato, dois empregados de escalão mínimo possível na estrutura da empresa que Vasco Galante escolheu para irem com o patrão visitar as manobras naturais no subsolo de Cheringoma naquele dia. E, na aeronave, sentados lado a lado com patrão Greg e sua classe executiva, os milionários americanos, a emoção vivida por nós os dois foge do meu poder de descrição.
Era tudo primeira vez. E menos predito: subir no helicóptero da classe executiva. Sentar-se com patrão. Juntinhos e como amigos. Conversar a vontade! Falar aos auscultadores do helicóptero. Visualizar a grandeza do e verdura do Parque naquela estação do ano. Ver nitidamente algumas comunidades residentes no interior da Selva, animais endoidecidos pelo ruido do engenho a procurarem refúgio debaixo das árvores fechadas. Meu colega Tato atónito de alegria. Já no ar o controlo emocional a escapar-lhe com frequência. Então coçava-me a cada segundo que visse um animal, uma casa perdida no ventre da mata de animais, ou logo que visse os cortes rochosos das zonas altas. A sensação de Tato tornou-se epidemia, quando já se aterrava na machamba de policultura da sua família, tendo em frente uma multidão de seus familiares que já não visitava há quase vinte anos. Também da família dele se podia ler a primeira vez triunfal: ver seu filho descer de um voo rodeado de brancos e que brancos? Os ricos impulsionadores de todos: do PNG, das comunidades à volta do Parque, de Khodzué, os salvadores do seu próprio filho que até o trazem de helicóptero para ver sua família, sua terra natal (seu madhembe). Mesmo um que andava doente na família recuperou da doença e andou nesse dia. E foi connosco ver as Grutas. É o Baptista que andava há dias deitado a padecer com dores de vista.
Depois de um tempo no seio da grande família e de Greg distribuir fotos de alguns da família que trazia no seu bolso, foi a saída para as Grutas que distam quase dois kms daquela casa de 31 membros. Agora sim fez-se uma troca justa. Greg dá espaço a todos. Sobem na aeronave os da família. Andámos nós a pé até as Grutas com uns membros da família enquanto outros voaram, ansiosos de experimentar o helicóptero pelo menos da machamba às Grutas. Que tal esta Páscoa?
Até a Peggy se lembra dela. Andou no capim de calções curtos no caminho que leva ao sítio misterioso. Com ela também Can e seu sobrinho, Tato, eu e muitos outros da família que não couberam no voo. A novidade governava tudo e em todos. Os estrangeiros espantavam-se pela destreza com que os nativos agilmente trocavam os pés na busca do caminho pedregoso cerrado com capim. A distância não existe para quem não está habitudo a andar de veículos e em Khodzué não pensem em transporte local.
O cansaço de andar já começara a aproximar-se nos estrangeiros quando o destino nos surprendeu com fissuras sem aviso prévio. “São as Gruta!”, gritam os donos. E logo os ritos tradicionais locais dizimaram todo nosso farnel. Serviu de ntsembe (cerimónia tradicional) necessário antes de se entrar para dentro do subsolo invulgar - a china dos morcegos.

Desculpem-me que já se esgotou o meu vocabulário barato. Não é fácil descrever as Grutas de Cheringoma. Foi só para dar uma ideia das Grutas, da Páscoa particular, da viagem de passeio de uns empregados juntinho com seu patrão num voo executivo. E...então Luís Francisco S. Chimbatata levando todo nosso lanche ofereceu-o aos espíritos dos seus antepassados em troca da nossa boa visita e segurança nas Grutas. Rockefeller e Greg regressaram pouco depois porque tinham outras agendas. Ficámos nós. Entrávamos cautelosos em cada gruta depois de algumas passadelas nas avenidas naturais adentro. Era como experimentar o impossível e deixar de pensar, aliás é condição número um, agir como uma criança e pensar como um tolo. Tem tantas entradas lá dentro de um bairro ao outro. E um rio misterioso com água fresca e permanente, uma bacia de pedra natural sempre cheia de água, as águas deste rio vão contornando a regar as raízes das rochas, algumas das quais minguadas com bocados de sol nas fissuras que se comunicam com o exterior. Uma variedades de morcegos vivos constituem o teto falso sobre as lages naturais. As plantas existem nas bermas do rio e fissuras, como se não existissem arbustos e mesmo árvores por fora das Grutas. Uma rocha oblíqua serve de um quadro onde os corajosos altos dignitários marcam sua passagem histórica. Aconselhamos que se coloque aí um livro e uma caneta. E lembrar que as avenidas adentro, em muitos sítios com o teto falso, aparecem impecavelmente pavimentadas com os excrementos dos donos do país-os morcegos. Um alérgico usa sapatos.
Saídos do subsolo, pus-me a colher a história da família Francisco Soares Chimbatata que tradicionalmente lidera as cerimónias tradicionais antes de se entrar para dentro destas memoráveis Grutas de Cheringoma, até a chegada do helicópterro que nos devolveu ao Chitengo-PNG. Mas não partimos de regresso antes da enfermeira Antónia (que Greg mandara vir no helicóptero para tratar o Baptista e outros doentes da Comunidade de Khodzué) terminar o seu atendimento aos muitos doentes que se juntaram rapidamente.
Domingos João Muala é membro do departamento de Desenvolvimento Humano do Parque Nacional da Gorongosa, onde ensina inglês e português ao pessoal do Projecto. Domingos está também, de momento, a escrever um livro sobre a história de Chitengo e suas comunidades circundantes. O seu colega, Tato Alexandre, é membro da equipa do Restaurante de Chitengo.
