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Gorongosa By Night

de Katie Beilfuss

FrogSurvey#1 002+Gorongosa by Night  _resized_sidebarO sol pôs-se há muito e o calor do dia dissipa-se na frescura de uma brisa nocturna. Amontoamo-nos no veículo das expedições nocturnas, um camião grande de caixa aberta, com assentos altos para melhor apreciar a vida selvagem. Somos dez pessoas – pessoal do Departamento de Serviços Científicos do Parque Nacional da Gorongosa e outros voluntários – todos a enfrentar o desafio do primeiro levantamento nocturno em muitos anos no Parque, ansiosos por ver a vida selvagem da noite, a maioria da qual é invisível durante o dia. 

O nosso objectivo neste levantamento nocturno é percorrer todas as áreas do percurso do safari fotográfico de 100-km em duas noites, em busca de, e contando, todas as espécies de animais que virmos ao longo do caminho, servindo-nos do nosso resplandescente holofote. Paramos também em áreas de terra húmida – bacias e cursos de água sazonais– a fim de escutar rãs e sapos enquanto estes entoam os seus chamamentos na noite. Pretendemos documentar as espécies de rãs e sapos do Parque e definir a sua fenologia – o momento dos seus ciclos de acasalamento – já que, dependendo da espécie, a sua actividade difere durante o ano.

Usamos muitos sentidos. A visão apenas funciona quando o holofote incide pois a escuridão é prevalecente. O olfacto pode ser útil, já que muitas vezes este é a primeira indicação de que se está na presença de um animal de grande porte, como um hipopotámo ou um búfalo. E os ouvidos são particularmente úteis para detectar o ruído de animais a subir às árvores ou a mover-se por entre os arbustos. O som é que nos permite encontrar as nossas rãs e sapos. O nosso gravador digital documenta os gorjeios e a agitação em cada paragem, de maneira a que possamos confirmar a identificação de cada espécie em momento posterior.

O sentido da visão é a maneira mais segura de encontrar animais à noite – o sentido da visão do animal, ou seja: o brilho laranja, vermelho ou até verde do reflexo da nossa luz nos olhos é o primeiro sinal de muitos animais. Observadores experientes da vida selvagem nocturna podem inclusivamente identificar certas espécies pela cor reflectida pelos seus olhos.

A nossa busca nocturna é bem sucedida. Os animais aparecem. Fuinhas e civetas, animais da família dos gatos, com pelo que ostensivamente remete para o do racum, abundam. O branco brilhante da civeta contrasta fortemente com as suas pintas pretas, e as cores destacam-se na noite. Passamos por uma “mina” de porcos-espinho numa área de terra húmida que de imediato chamamos “Porcupine Pan” (Bacia de Porcos-Espinho).  Nove porcos-espinho de espinhos aguçados encontram-se lá, a usufruir dos tenros rebentos de jacinto de água que crescem nas margens da água da bacia. Esta bacia é uma das poucas que ainda tem água nesta época do ano, fim da estação seca, e por isso é um forte atractivo para animais em busca de água. Uma jágara bébé atravessa-se frente a nós na estrada, fazendo estranhamente lembrar um kanguru, desaparecendo rapidamente na moita.

E avistamos também muitos dos nossos amigos diurnos: piva, impala, imbabala, oribi, até palapalas, muitos aninhados na noite, a esconderem-se de predadores nocturnos, sempre de preaviso.

Chegamos à “Casa dos Hipopótamos”, um vestígio dos velhos tempos no parque. O prédio do que outrora fora um restaurante-bar popular e miradouro nas margens do Lago Urema, não passa hoje de um mero esqueleto daquilo que foi antigamente. Mas a vida selvagem permanece lá. Encontramos uma família de elefantes – várias fêmeas e as suas crias – a regalarem-se com um banho lamacento na margem do Lago Urema. Queremos ficar a vê-los, curiosos e tomados de excitação com esta possibilidade, mas deixámo-los em paz, lembrando que os elefantes podem ser ferozes quando molestados.

Conduzimos ao longo do Rio Urema, atentos aos sons da noite. É então que um cheiro nos chega – almiscarado e forte –  e momentos depois, deparamos com uma besta enorme a andar, desajeitada, na estrada em frente a nós: um hipopótamo fora de água, à procura de zonas para se roçar, na frescura da noite. A visão que temos dele é curta: desaparece no mato de novo.

O tempo passa rápido enquanto estamos focados em encontrar mais criaturas para acrescentar à nossa lista. Mas, por fim, completamos o nosso circuito e regressamos a Chitengo. O gerador está há muito desligado para a noite e os nossos colegas e vizinhos dormem profundamente. Entramos em casa às escuras, refrescados pelo nosso safari ao ar da noite, felizes com o que tivemos a possibilidade de ver durante o serão, cansados mas reconfortados pelo esforço.

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