De Carlos Lopes Pereira, Veterinário do Parque Nacional da Gorongosa e director dos Serviços de Conservação
Faz agora dois anos, tive de imobilizar, simultaneamente, dois leões (os Dois Irmãos Inseparáveis) a fim de remover uma armadilha de um deles e amputar o que restou da pata direita do outro – as garras tendo sido estropiadas por uma armadilha (um dispositivo selvático que os caçadores furtivos usam para apanhar animais). Desde então, os irmãos foram avistados entre as picadas 4 e 6 da rede de estradas perto do campo de Chitengo, o que indicia claramente que, por vezes, estes irmãos deslocam-se muitos quilómetros numa só noite.
No dia 27 de Maio de 2007, avistamo-los perto da Picada 4. A nossa missão do dia era observar de perto o leão “amputado”, a sua habilidade para lidar com a comida e a sua relação com o seu irmão. Para tal, trouxemos-lhes um suculento porco selvagem (imobilizado com uma substância própria, que não afecta os leões) que deambulava por perto e, depois de algumas manobras interessantes, libertamos o porco “almoço” a alguns metros dos irmãos. O leão saudável encarregou-se do porco e afastou-se com ele para uma mata ali perto. Rapidamente o ouvimos chamar pelo irmão (um longo e calmo grunhir em jeito de “Por favor, vem comer”).
Observamo-los a comer durante hora e meia. Ainda que os irmãos tivessem, de vez em quando, uma espécie de discussão acerca da comida, podíamos ver que partilhavam a comida e que o leão deficiente usava a pata direita da frente e o que restou da pata esquerda para segurar na carcaça do porco selvagem.
Quando percebemos apenas restarem escassos restos da carcaça, interrompemos o almoço com um tiro de fisga para uma palmeira, contando que os irmãos libertariam a carcaça momentaneamente e que o leão saudável voltasse a ela. Surpreendentemente, depois da perturbação, foi o leão deficiente que se apoderou do resto da refeição. O leão saudável manteve-se à parte, observando, sem interferir.
Estou a estudar a possibilidade de fazer algo para reduzir ou remover a hiperflexão (o curvar da pata para o interior da perna) da pata a fim de melhorar a vida deste leão. Esta hiperflexão, que o faz mancar e lhe impossibilita usar a pata, é o resultado do corte de tendões causado pela armadilha; a hiperflexão é também observada em gatos grandes cujas patas foram afectadas por um motivo qualquer.
Regozijamo-nos pelo facto de que, apesar da sua deficiência, o leão amputado é capaz de desenvencilhar-se com o que o seu irmão caça e partilha com ele.
Esperamos voltar a ver estes Dois Inseparáveis Irmãos.



