De Petra Ballings
Uma equipe de cientistas passou três semanas a explorar a Serra de Gorongosa, desde 15 de Abril até 6 de Maio de 2007, com o objectivo de realizar um estudo sobre a vegetação para o Departamento Científico do Parque Nacional da Gorongosa. O campo foi gerido pelos trabalhadores do Departamento Científico, Petra Ballings e Bart Wursten. Eles juntaram-se a três botânicos oriundos do Zimbabwe: Christopher Chapano do Herbário Nacional de Harare, Tom Müller, um ecologista Florestal de renome e Anthony Mapaura, do Museu Nacional de Matare. De Moçambique fizeram parte da equipe Alice Massingue, uma botânica da Universidade Eduardo Mondlane em Maputo. Cinco pessoas locais de Nhancuco—Silvestre, Mohroi, Jaime, Tobias e Avariado—ajudaram a equipe no acampamento e conduziram os cientistas nos caminhos abruptos da Serra.
Tenha o prazer de ler os excertos do jornal da botânica Petra Ballings acerca da aventura da equipe na Serra:
1. Para chegar à Serra: que trabalho!
Do Parque Nacional da Gorongosa, todo o equipamento teve que ser transportado para Nhancuco, na base da Serra. Da base, todo o material foi transportado por carregadores locais até ao topo da Serra, quase 5 horas de marcha a pé dentro de uma floresta cerrada (subindo desde os 700m até aos 1.700m). O plano era de passar pelo menos 2-3 dias no acampamento antes que os cientistas voassem de helicóptero no domingo, dia 15 de Abril. Como sempre acontece com os planos, ajustes tinham que ser feitos. Alguma parte do equipamento essencial (tendas) ainda não tinha chegado. Até o dia 11 nada aconteceu; nenhuma tenda chegou. Já algumas tensões começavam a fazer-se sentir e eu estava com um pouco de pânico. Quatro outras tendas foram descobertas, mas não eram de material que pudesse resistir a uma boa “chuva da Serra da Gorongosa”. Mesmo assim ainda tínhamos falta de duas tendas! Chegou o dia 12 e não tínhamos ainda tenda…então o verdadeiro pânico fez se sentir!!!!! De repente descobre-se que 8 tendas de lona estavam no Parque misturadas com tendas dos trabalhadores! Uma confusão de frustração e alívio fez-se sentir ao mesmo tempo. Finalmente as tendas são transportadas para a Serra no dia 13 de Abril e todo o material é carregado para o cume da Serra. Mais de 25 carregadores subiram e desceram consecutivamente—uma autêntica recordação dos dias de Henry Morton Stanley.
Eu e Bart então planificamos subir ao cume da Serra no dia 14, o que nos daria sábado e a manhã do domingo para seleccionar todo o equipamento básico do acampamento… Nunca planifique demasiado as actividades!!!!! Enquanto conduzimos para Nhancuco, cai uma chuva torrencial. Não tínhamos como andar, mesmo os transportadores locais também abanavam as cabeças: “Impossível”. Então eu e o Bart pensámos em arrancar logo que a aurora despontasse para que chegássemos ao topo da Serra na altura em que os cientistas voassem de helicóptero. Antes da aurora despontar não podíamos ver nada, tudo estava encoberto com uma forte cacimba. Não podíamos arrancar; nenhum helicóptero podia sobrevoar naquelas condições de tempo. Não houve necessidade de urgências, por isso todos tivemos mata-bicho juntos e por volta das 8 da manhã arrancámos para Nhancuco. No fim tivemos sorte. A cacimba rapidamente desapareceu e, quando chegámos a Nhancuco, a Serra estava clara. Então esperamos. Esperávamos que o helicóptero chegasse no intervalo das 9:30 às 10:00, mas nada…10:30, nada…11:00, fizemos
outro plano…11:30, nunca o som do helicóptero nos pareceu tão bom! Sorrisos reaparecem nas faces preocupadas. Bom, penso que na noção de tempo Africana 2 horas não é grande problema! Fomos então levados de helicóptero - que luxo! Que sensação! Que bela visão de apenas uma pequena parte da Serra!
Finalmente: domingo, dia 15 de Abril por volta das 12:30 todos nós chegámos lá!!!!
2. O estabelecimento do Acampamento
Nós montámos o nosso acampamento no cimo da serra justamente fora da mais impressionante floresta que mesmo por fora mostra ser uma floresta virgem. Atrás do acampamento fica uma pequena porção de floresta e uma enorme cadeia de rochas. Ao lado esquerdo do acampamento está uma paisagem de mais arbustos e um enorme cume com floresta defronte. Tudo aqui é tão virgem: não existem carros, nem pessoas, nem casas; não existe nada… é como se estivesse no cimo do mundo!!! O acampamento tem 5 tendas para dormir, 1 uma tenda para um espaço de trabalho e 1 tenda para servir de cozinha. A espera das tendas valeu apenas. Elas são feitas de lona resistente e têm bastante espaço! Existe um pequeno espaço para sentar com uma fogueira,
onde se preparam as refeições.
As instalações sanitárias são uma pequena pá e um rolo de papel higiénico. Homem, oh homem, estamos de novo de volta ao primitivo…mas as tendas são grandes e confortáveis, a comida é saborosa, as redondezas são espectaculares e a companhia é boa, o que mais podíamos precisar?
3. Um dia no acampamento
Um dia normal no acampamento decorre da seguinte maneira. Acordamos com a primeira claridade do dia e colocamos a chaleira no fogão. O mata-bicho é de cereais, frutas, pão, doce e chá / café. Depois preparamo-nos, levamos alguma coisa para almoço e partimos. Tentamos cobrir áreas diferentes (capim, floresta, de plantas trepadeiras…) e em diferentes altitudes. Coleccionam-se amostras, produzem-se listas de plantas, e fazem-se leituras de GPS. Mohroi rapidamente se transforma no nosso trepador de árvores. Às vezes precisam-se folhas das árvores grandes da floresta para identificação e é impressionante ver com que perícia e a que altura Mohroi sobe uma árvore. Tobias parece conhecer todas as picadas locais no cimo da serra, Jaime está bastante contente por estar de serviço acampamento, Silvestre é o mais velho de todos e, por isso mesmo o líder da equipe (ele também aprendeu como efectuar as leituras de GPS para mim) e Avariado é o que melhor fala Inglês e serve de tradutor (muitas vezes recorrendo ao uso da linguagem gestual). Este tipo de trabalho leva a maior parte o dia. Regressados ao acampamento, mais trabalho precisa de ser feito: as espécies das plantas são seleccionadas, as listas são finalizadas. Passei algum tempo com jovens locais e tivemos a nossa pequena escola: uma mesa, algumas cadeiras, uma lapiseira e um caderno de exercícios. Estive a aprender um pouco mais de Português e ao mesmo tempo ensinar-lhes um pouco de Inglês. O conhecimento deles sobre turismo e da língua inglesa é muito, muito, muito básico. Mas eles estão bastante interessados em aprender; fui professora durante muitos anos, mas nunca encontrei alunos tão interessados como estes!! Estamos a tentar escolher pelo menos 10 pessoas para treiná-los a ajudarem no acampamento, e para servirem de guias de turistas para a serra.
Acreditamos que assim vão poder ganhar mais e ter uma vida melhor e não irão precisar de cortar árvores da serra para obter a sobrevivência. Por volta das 5:00 começamos com o nosso jantar. Produzi um menu para a semana, no sentido de podermos comer diferentes coisas durante sete dias. Muita da nossa comida é enlatada, mas o pão, os vegetais e a fruta ser-nos-ão entregues de três em três dias. Depois do jantar juntamo-nos à volta do lume. Saímos deste lugar só há três semanas atrás e foi suficiente para sentirmos uma grande mudança de temperaturas. Chris inventou a “Garrafa de Água Quente da Gorongosa”. Ele enche uma garrafa plástica de água quente e leva-a consigo para a cama. Todos achámos muita piada e rimos, mas rapidamente decidi seguir-lhe o exemplo. Conversamos sobre as descobertas do dia, planificamos o dia seguinte e por volta das 8 da noite vamos deitar-nos depois de um dia cheio de diversão na serra!
4. As deslocações à volta da serra
Depois de acamparmos num lugar por uma semana nós precisamos de fazer cobertura a muitos lugares para podermos ter uma ideia mais clara sobre toda a serra. É impossível deslocar todo o acampamento, 5 pessoas não poderiam conseguir carregar o material de 19, por isso usamos acampamentos móveis. Reduzimos os nossos bens e vamos para outro lugar onde a vida será ainda mais primitiva. Ao invés de usarmos tendas grandes, usamos umas muito pequenas e leves. Carregamos comida para poucos dias. Cozinhamos directamente no lume. E o nosso espaço de trabalho é no chão! As outras duas últimas passamo-las a mudar de um sítio para outro em cima da serra, na floresta na periferia da mesma serra. Esta é uma experiência incrível, estar em locais tão remotos e com pessoas tão sábias. Gostaria de repetir essa experiência todos os meses! Enquanto os outros passaram os seus últimos tempos no campo, eu e o Bart ficamos concentrados em desarmar o acampamento e organizar os carregadores das coisas para o regresso a Nhancuco. Todos começamos a pensar em água quente, deixando atrás o pequeno paraíso que esperamos poder sobreviver à pressão de uma sociedade moderna…
