Por Celestino Gonçalves

I - VIAGEM E PRIMEIROS DIAS NO PARQUE
1 – A viagem Maputo - Chitengo
Depois da última visita que fiz ao Parque Nacional da Gorongosa, em Janeiro de 2000 e goradas que foram duas outras tentativas de ali voltar em 2002 e 2004, consegui finalmente, de 10 a 19 do corrente, visitar de novo este maravilhoso santuário da fauna bravia que em tempos foi considerado o melhor de África!
Fiz a viagem de Maputo para o Parque de carro, na companhia de um velho amigo e companheiro de trabalho, o Dr. Paul Dutton, eco-biologista sul africano de reconhecidos méritos no campo da fauna bravia, que se mantém activo e presta serviço como consultor da Carr Foundation, do já famoso filantropo norte americano Greg Carr que há dois anos a esta parte vem desenvolvendo um importante projecto de restauração e desenvolvimento no mesmo Parque.
O carro de Paul Dutton em que viajamos de Maputo para a Gorongosa
(Foto tirada numa das ruas de Xai-Xai)
Os cerca de 1.200 quilómetros que separam Maputo do Chitengo foram percorridos tranquilamente na razoável viatura do Paul, em dois dias, com uma reconfortante paragem e pernoita em Inhassoro na casa de praia de um amigo comum, o Ricardo Teixeira Duarte.
Com Paul Dutton (direita) o velho amigo e companheiro de muitos anos nos Serviços de Fauna Bravia em Moçambique.
(Foto na Esplanada da Maxixe, numa paragem para refrescar!)
Pesca artesanal na praia de Inhassoro
Desde 1994 que não me encontrava com o Paul Dutton e esta foi uma excelente oportunidade para um desfiar de recordações dos tempos (e foram muitos anos, antes e depois da independência) em que ambos demos o melhor do nosso esforço em prole da defesa e conservação da vida animal selvagem em Moçambique.
Quando passávamos sobre a ponte do rio Save
Uma refeição improvisada à beira da estrada, perto do rio Púnguè
2 – Chegada ao Parque
Animado pelas constantes informações que vim recebendo ao longo dos últimos 10 meses, da parte do nº 2 do Projecto Carr, Vasco Galante, cheguei ao Parque com a curiosidade muito aguçada de conhecer os progressos ali alcançados depois da minha ultima visita há cerca de 7 anos. A chegada ao Chitengo, no final da tarde do dia 10, foi sentida com alguma emoção, felizmente não tão forte como aquela de que fui acometido em Janeiro de 2000 quando ali cheguei depois de 19 anos de ausência e encontrei ainda fortes vestígios de destruição causados pela guerra.
O encontro que tivera em Lisboa, em finais do ano passado, com Greg Carr e Vasco Galante, realizado justamente para falarmos do Parque, da sua história e do seu desenvolvimento, sobretudo nas décadas de 60 e 70, fora o ponto de partida para uma aproximação e consequente colaboração com a direcção do Projecto da Carr Foundation e daí o honroso convite que da mesma recebi para visitar o Parque sempre que desejasse.
Junto da placa que devido ao seu bonito enquadramento é já um ex-libris do Parque Nacional da Gorongosa situado a 11 Kms do portão de entrada
Outra foto que se impõe quando se chega ao portão de entrada!
Também a ligação que sempre tive com duas das principais figuras que desde 1994 têm estado à frente da administração do Parque, concretamente o Dr. Baldeu Chande e o Engº Roberto Zolho, dois bons amigos que sempre me dispensaram carinhosas atenções, me dera coragem para voltar e me sentir ali como nos velhos tempos em que fui colaborador directo do mesmo Parque.
O ambiente que fui encontrar no Chitengo, de muitas caras novas, de cientistas e técnicos ainda provisoriamente instalados mas empenhados num trabalho sério e árduo, não me surpreendeu e rapidamente me familiarizei com as pessoas que muito gentilmente me receberam e cada um à sua maneira quiseram ouvir-me sobre o passado histórico do Parque.
O jantar servido numa mesa comum e participado pelos responsáveis e todo o staff técnico e científico presente no Chitengo, foi a primeira das muitas atenções de que fui cumulado durante a estadia no Parque e que muito me sensibilizaram. Naturalmente que o estatuto de decano dos serviços de fauna bravia, que me vem sendo atribuído por ser o mais idoso dos antigos funcionários dos serviços de fauna bravia ainda na ribalta, muito contribui para que este tipo de manifestações vão acontecendo, felizmente, na minha vida!
A primeira refeição no Chitengo após a chegada, rodeado pelo Engº Roberto Zolho (esquerda) director e um dos mais abnegados defensores do Parque desde os tempos difíceis da guerra civil até ao presente! À direita está a bióloga Alexandra, uma especialista em fauna alada.
A gostosa e sugestiva sobremesa com que o velho foi mimoseado na primeira refeição!
A primeira foto com Greg Carr, tirada durante uma amena conversa após o jantar no dia da chegada ao Chitengo
3 – A Primeira Visita ao Interior do Parque
As actividades no Parque começam ao raiar do Sol, tal como antigamente e isso implica levantar cedo. Não se faz qualquer esforço pois também as normas de deitar se regulam pelo mesmo diapasão: cedo!
A primeira surpresa ao sair do bungalow foi o espectáculo dos babuínos (macacos-cão) que em bandos de algumas dezenas invadem sistematicamente o acampamento do Chitengo todas as manhãs, numa atitude de atrevimento que leva as pessoas prudentemente a desviarem-se do seu caminho! Também uma ou duas famílias de facoceros (javalis africanos) têm o mesmo hábito e sem receio dos humanos vagueiam pelo acampamento e se alimentam nos seus bem tratados relvados. Esta situação, que preocupa já os responsáveis do Parque, decorre porque devido à guerra que grassou na região o Chitengo fora abandonado durante anos e naturalmente estas duas espécies ali encontraram boas condições de alimentação, nomeadamente nos frutos das mangueiras e mafurreiras.
Logo de manhã os babuínos visitam o acampamento do Chitengo!
(Foto cedida pelo Projecto Carr)
Planeado o primeiro passeio que se seguiu após o café e as torradas da manhã (madrugada queria eu dizer), tomamos assento num confortável e bem apetrechado 4x4, juntamente com os meus companheiros de viagem de Maputo, Paul e Gilian, do Dr. Baldeu Chande, da bióloga Alexandra e do Hendrik Pott, este o condutor do game drive voluntário para esta que não é a sua habitual tarefa mas que gosta de fazer de vez em quando para desanuviar o espírito!
Preparativos para o primeiro game drive.
Na foto, à esquerda, está o Dr. Baldeu Chande, consagrado biólogo moçambicano especialista em fauna bravia que acaba de regressar ao Parque onde tem desenvolvido trabalho de relevo!
À direita está o Hendrik Pott, encarregado geral do Chitengo, um verdadeiro gentleman, incansável no atendimento aos turistas, funcionários e técnicos do Parque, assim como aos visitantes oficiais!
Os preparativos e a saída do Chitengo, a caminho dos tandos, por me serem ainda tão familiares, fizeram-me recuar quarenta anos e sentir-me como nos tempos em que isso era uma rotina muito agradável porque se esperava sempre um dia diferente no interior do Parque. E na verdade era isso que acontecia pois os muitos milhares de animais que povoavam estes tandos, savanas, lagos, rios e florestas, eram os nossos actores favoritos porque nos proporcionavam espectáculos de rara beleza, como eram as lutas entre os machos, o acto de procriação, os nascimentos das crias, o banho dos elefantes e a forma como as mães educam e protegem os filhos, o canto das aves mais barulhentas como a águia pesqueira, os calaus trompeteiros, os francolins, as galinhas do mato, os toracos, as ibis e as rolas, cujo eco vindo de longe é uma autêntica sinfonia que nos encanta! E quando o dia era mesmo de sorte, podíamos ainda deparar com coisas raras de ver como eram os leões a caçar (na Gorongosa normalmente só caçam durante a noite), uma jibóia a engolir um antílope ou encontrar um daqueles grandes e cada vez mais raros elefantes conhecidos por cambacos que vagueiam distantes das manadas porque a lei da natureza dá aos mais novos força suficiente para os afastarem das fêmeas!
Mapa da rede turística do Parque
(Foto extraída do site www.gorongosa.net)
Voltar a estes sítios que tão bem conheci e que foram palco de muitos anos de trabalho, é muito reconfortante, pese embora o desalento que sinto pela escassez de animais que agora povoam o Parque.
Mas as surpresas agradáveis começaram a surgir logo que atingimos o tando do Sungué. Ali por perto da Casa dos Leões vimos os primeiros animais, como impalas, inhacosos, facoceros, changos e oribis. Ao longe, em várias direcções e a recortar o horizonte, divisamos silhuetas de outros das mesmas espécies.
O grupo do nosso primeiro game drive.
Da esquerda para a direita: O velho, Gilian, Paul Dutton, Hendrik, Alexandra e Baldeu Chande
Os primeiros animais fotografados – Facoceros e Inhacosos – na planície do Sungué
O que resta da “Casa dos Leões”, uma das cinco casas construídas em 1940 junto do rio Sungué, para acampamento turístico e que devido a inundações frequentes viria a ser abandonado e tomado pelos leões. Foi um verdadeiro ex-libris do Parque!
Este primeiro contacto com os famosos tandos da Gorongosa, após a minha última visita de há sete anos, deu para perceber que a recuperação dos animais da planície, embora lenta, é uma realidade, sobretudo para aquelas cinco espécies. O mesmo não se pode dizer de outras de maior porte como os búfalos, zebras, bois-cavalo e elandes que aos milhares povoavam praticamente toda a zona turística do Parque e que agora estão ainda num processo lento de recuperação. Para estas espécies há mesmo um projecto de reintrodução já iniciado com búfalos vindos do Kruger Parque.
Foto parcial da manada de búfalos recentemente reintegrada no Parque
(Foto cedida pelo Projecto Carr)
Transposta aquela planície, onde se presencia um dos mais belos pôr de Sol em Moçambique, com a silhueta da Serra da Gorongosa desenhada a Oeste, no fundo azul do céu, o nosso guia seguiu pela picada 4 que é uma das melhoras rotas para encontrar leões e que conduz ao lago Urema. Algumas paragens para fotografar pequenos grupos de Inhacosos, de impalas, famílias de facoceros, antílopes isolados como changos e oribis e aves de grande porte como o solitário e pachorrento calau da terra, foram animando o grupo até ao miradouro do Urema. Não vimos leões mas a certeza de que eles existem por perto e em bom número é já uma consolação!
Grupo de impalas junto da picada 4
(Foto cedida pelo Projecto Carr)
Outra surpresa agradável ocorreu quando chegamos ao miradouro do lago Urema e constatamos que ocorrem ali três verdadeiros milagres: a presença já de muitas dezenas de hipopótamos, algumas centenas de crocodilos e, de pasmar, enorme quantidade de Inhacosos com efectivos a rondar os dois mil! Em Janeiro de 2000 contavam-se pelos dedos das mãos os Inhacosos e os crocodilos e havia apenas um tresmalhado hipopotamo!
Este fenómeno, quanto aos hipopótamos e crocodilos, justifica-se pelo facto das cheias que entretanto ocorreram e fizeram transbordar o rio Zambeze. Este grande rio é atravessado pelo Vale do Rift que faz ligação com o oceano Indico na região da Beira e passa precisamente no coração do Parque onde o Lago Urema é receptor das águas vindas do Norte e albergue natural destes animais que sempre acompanham o curso das cheias.
Grupo de hipopótamos no rio Urema
Depois de uma paragem e de nos regalarmos com a paisagem do lago Urema vista do miradouro, seguimos a rota que passa pela lagoa do Paraíso, agora com pouca água devido à época seca que se atravessa (as chuvas aproximam-se), mas mesmo assim bem frequentada pelas espécies já referenciadas na planície do Sungué e por grande variedade de aves como os imponentes jabirus, os desengonçados marabus, as elegantes garças e cegonhas, as barulhentas ibis, as grandes sécuas, os gansos do Nilo, os vaidosos grous coroados, os colhereiros na sua frenética faina de pesca, as galinhas d’água, os mergulhões, os pássaros martelo e uma infinita variedade de aves mais pequenas. Aqui a paisagem convida a bater muitas fotos e a observar os animais. É também o sítio ideal onde se ouvem com intensidade os silvos agudos das águias pesqueiras, tão característicos e penetrantes!
Uma pausa no miradouro do Urema
Tomamos depois a picada 11 que acompanha a margem direita do rio Urema até à ligação da estrada Urema-Chitengo onde estivemos bem perto de um grupo de cerca de 20 hipopótamos. Esta zona apresenta-se, tal como outras que visitei nos dias seguintes, bem regenerada de vegetação espessa, com árvores e arbustos que constituem habitat preferencial para as espécies de floresta como inhalas, imbabalas, porcos do mato, macacos, cabritos vermelhos, civetas, manguços e porcos espinho que já ali estão muito bem representadas e em relação às quais a caça furtiva em massa que se verificou nos anos de guerra civil não causou o impacto terrível verificado nas restantes espécies comuns no Parque, algumas delas levadas à extinção!
Estávamos agora na zona frequentada pelos elefantes, cujo número tem aumentado significativamente e atingem já mais de duas centenas, quando em 2000 rondava os 125 exemplares e formavam aquela que foi a primeira manada a regressar ao Parque depois da razia dos anos de guerra que levou à estaca zero não só esta como outras importantes espécies. A hora já avançada do dia e o calor que se fazia sentir não nos permitiu encontrar os grandes paquidermes, de certo já recolhidos ao ambiente mais fresco da floresta distante das picadas.
Nos dias seguintes tivemos mais sorte!
Com Vasco Galante (esquerda), director de comunicações do Parque. Aqui já envergava roupa emblemática do Parque que muito gentilmente me foi oferecida!
O resto da manhã foi passada a observar alguns grupos de hipopótamos nos pontos de mais concentração de água ao longo do rio Urema. Tomamos depois a picada do Urema e fizemos os 25 Kms de regresso ao Chitengo sempre entretidos com o brusco e regular aparecimento dos bush animals pois todo o percurso é revestido de densa e verdejante floresta!
Um dia gratificante e memorável!
Maputo, Dezembro de 2006
Celestino Gonçalves
Fiscal de caça e expert em fauna bravia que viveu e trabalhou em Moçambique de 1952 a 1990.




